Lara Córdula em Dolores | Foto: Wilian Aguiar
Lara Córdula em Dolores | Foto: Wilian Aguiar

O que é mentira e o que é verdade na trajetória de uma atriz, e como os fatos podem ser moldados para criar uma nova realidade quando contados por uma artista em franca decadência? Esse é o mote que norteia a ação de Dolores, monólogo escrito e dirigido por Marcelo Várzea especialmente para Lara Córdula.

Em cartaz no Instituto Cultural Capobianco, no Centro da capital, Dolores parte de uma premissa mais ambiciosa do que sua realização deixa transparecer. Emoldurada pelo (belíssimo) cenário de Márcio Macena, Lara Córdula entra em cena com uma segurança que impressiona – principalmente se levado em conta que o monólogo estreou apenas em 04 de junho.

Com técnica irrepreensível, Córdula modula intenções e passeia sem dificuldades por registros que variam da intensidade à delicadeza com insuspeita leveza. E são esses registros o grande mote da peça. A atriz trabalha no seu próprio tempo num texto narrativo sem jamais deixar de prender a atenção do público.

Ao contar de maneira linear a vida e trajetória de Dolores, a atriz abusa de um carisma impressionante, que valoriza o texto e a ação de sua personagem, pontuada através da bonita luz de César Pivetti e Vania Jaconis, outro ponto positivo do espetáculo.

Aliás, Dolores reúne em sua ficha criativa uma série de nomes que valorizam a obra. Se o supracitado cenário de Macena – que também assina o bom figurino – faz remeter a parceria anterior do cenógrafo com o diretor Várzea ( o solo Silêncio.Doc), a trilha de Raul Teixeira, embora ortodoxa, serve bem a ação do espetáculo focado na potência de uma grande atriz.

Contudo, se sobrou força e beleza a Córdula e equipe, faltou delicadeza a Várzea tanto na gestão do texto quanto na condução do espetáculo – com corretos 50 minutos de duração. Faltou neste segundo texto deste ator, diretor e dramaturgo a mesma delicadeza que transbordou Silêncio.Doc, solo da paixão que marcou sua estreia como dramaturgo.

Assim como também lhe faltou a inspiração cênica que pontuou suas duas direções anteriores, Michel III, de Fabio Brandi Torres, e A Porta da Frente, de Júlia Spadaccini, peças já imensas que atingiram o ápice na visão do diretor.

Tanto texto quanto direção resultam triviais em Dolores, que se vale de algum tom cômico mais graças às inflexões de Córdula do que necessariamente ao texto pensado por Várzea, que parece caminhar na superfície de uma história promissora que se perde entre trivialidades menos sedutoras, mas triunfa mesmo é no excelente desempenho de Lara Córdula, atriz que já se comprovou, e agora reafirma, ser uma das melhores de sua geração.

SERVIÇO:

Dolores

Data: 04 de junho a 14 de agosto (terças e quartas)

Local: Instituto Cultural Capobianco – Teatro da Memória – São Paulo (SP)

Endereço: Rua Álvaro de Carvalho, 97, Centro (próximo ao metrô Anhangabaú)

Horário: 21h

Preço do ingresso: R$ 40,00