Abre a Janela e Deixa Entrar o Ar Puro e o Sol da Manhã | Foto: João Caldas
Abre a Janela e Deixa Entrar o Ar Puro e o Sol da Manhã | Foto: João Caldas

Dramaturgo e escritor que se tornou uma das principais referências do movimento da contracultura na década de 1970, Antônio Bivar criou uma série de textos para o teatro que se tornaram clássicos da dramaturgia nacional, como Cordélia Brasil (1967), O Cão Siamês ou Alzira Power (1970) e Abre a Janela e Deixa Entrar o Ar Puro e o Sol da Manhã (1968).

Esta última, que lhe rendeu um Prêmio Moilière, recebeu, 50 anos após sua estreia, releitura produzida pela companhia teatral As Moças, sob a direção de André Garolli. Agora, o espetáculo retorna a cena e cumpre (curtíssima) temporada na SP Escola de Teatro, na Praça Franklin Rossevelt, zona central da capital, até o dia 01 de julho.

Nesta montagem, Angela Figueiredo e Fernanda Cunha dão vida a Geni e Heloneida, duas prisioneiras que desenvolvem uma amizade e cumplicidade graças ao tempo que permanecem juntas. A dupla é assombrada pela figura de um carcereiro e de uma carcereira, interpretados pelo ator Fernando Fecchio.

Bivar cria neste espetáculo uma dramaturgia talhada para grandes encenações. Ao não esclarecer a real condição de suas protagonistas – se são prisioneiras em uma prisão, em um hospital psiquiátrico ou em sua própria mente -, o dramaturgo conduz a plateia por uma realidade abstrata, permitindo múltiplas interpretações que jamais caem no simplismo barato.

Contudo, a montagem do Cia. As Moças carece de um vigor que valorize, ou ao menos se intensifique na mesma medida do texto de Bivar. Sob a direção de Garolli, Angela Figueiredo pisa no freio na interpretação de sua Geni – personagem que assume ao longo do primeiro ato antes de assumir a personalidade de Heloneida.

Boa atriz que já se comprovou apta a papéis de grande carga dramática – como na controvertida primeira montagem de Diga que Você já me Esqueceu, de Dan Rosseto, em 2016 -, Figueiredo parece pouco à vontade, e não encontra solo fértil para o jogo cênico com sua parceira Fernanda Cunha, que entrega uma versão histriônica de ambas as personagens que interpreta.

Enquanto Figueiredo surge excessivamente sóbria em cena, Cunha parece estar sempre um tom acima, sem jamais convencer, seja nos momentos de maior carga dramática, seja no flerte com o absurdo promovido pelo texto. A direção de Garolli também pouco faz pela encenação, resultando trivial, embora, verdade seja dita, consiga tirar do grupo de atores uma boa dinâmica com a cenografia de Julio Dojcsar.

Tanto cenografia quanto figurino (assinado por Fernando Fecchio), inclusive, conseguem se destacar na montagem, construindo uma beleza plástica sublinhada pela luz de Fran Barros – notadamente prejudicada pelas condições do palco da SP Escola de Teatro – e pela trilha sonora assinada por Ricardo Severo ao lado do titã Branco Mello.

Se dividindo entre o carcereiro – representando uma espécie de sonho sexual edificante da dupla de prisioneiras – e a carcereira – representante clara do contrário -, Fecchio entrega uma interpretação que opta por estereótipos tão ou mais histriônicos que os assumidos por Fernanda Cunha em cena, resultando numa interpretação destoante que pouco faz pela encenação como um todo.

Sem o vigor para fazer jus ao excelente texto, a encenação de Abre a Janela e Deixa Entrar o Ar Puro e o Sol da Manhã carece, principalmente, de um elenco que não sucumba a interpretações que flertem com um simplismo que nada adicionam ao trabalho.

SERVIÇO

Data: 14 de junho a 01 de julho (sexta a segunda)

Local: SP Escola de Teatro – São Paulo (SP)

Endereço: Praça Franklin Roosevelt, 2010 – Consolação

Horário: 21h (sexta-feira, sábado e segunda-feira); 19h (domingo)

Preço do ingresso: R$ 20,00 (inteira)/ R$ 10,00 (meia)