Retratos| Foto: Glenio Campregher
Retratos| Foto: Glenio Campregher

Foi com a casa cheia, e uma fila quilométrica na porta que se encerrou a vigésima edição do Festival Cenas Curtas promovido pelo tradicional Grupo Galpão em seu Galpão Cine Horto, espaço de fomento e produção da arte e da diversidade.

Com cenas que não reproduziram o brilhantismo da noite anterior, a última noite, contudo, contou com discurso inflamado do diretor e coordenador geral do festival e do espaço, Chico Pelúcio, que, como todas as noites, voltou a lembrar a importância política da arte e salientou o trabalho de inclusão do Galpão Cine Horto.

Menos oscilante que a segunda noite, e com espetáculos menos irregulares que na terceira, a quinta e última noite do Festival Cenas Curtas trabalhou com experimentos cênicos e discursos de resistência – alguns melhor desenvolvidos que outros e cenicamente melhor trabalhados.

Se o desenvolvimento pueril de Nagô abriu a noite de forma prosaica, Eu não sei Você, mas eu sou Sapatão injetou humor na crítica a lesbofobia com toques de pura dramaticidade. Entretanto, Lentes de Contato, logo em seguida, se afogou em maré de placidez deixando claro que existem questões que, apesar de promissoras quando postas enquanto temática, ressoam desinteressantes frente a performances que abdicam da comunicação.

Favorecido por ótimo número de entreato estrelado por Lara Madonna Silva Costa (num ato de protesto contra a transfobia antecedido por teatral espetáculo de bate cabelo), Re-Tratos foi, talvez, uma das melhores – senão a melhor – performances ao longo das cinco noites de Festival, numa fusão fluida do universo de García Lorca com o teatro de bonecos, garantindo encerramento à altura de um Festival que, ao longo de 20 anos, redimensionou o teatro independente e contemporâneo na cena mineira.

Confira abaixo a crítica das cenas apresentadas na noite de 28 de setembro:

Nagô (Cotação: * *)

Nagô | Foto: Glenio Campregher
Nagô | Foto: Glenio Campregher

Artista oriunda do grupo Nok é Nagô, Zaika dos Santos chegou ao Festival Cenas Curtas com a proposta de uma performance acerca do autocuidado, da autoaceitação e do amor próprio frente aos discursos de racismo, discriminação, machismo e o processo de desnormalização e sexualização da figura da mulher negra tomando como principal figura de linguagem o uso de suas longas tranças.

Entretanto, a despeito de problemas, a priori, insignificantes, como o prólogo longo (e professoral) com a exibição de um vídeo quase inaudível e sem legendas, o desenvolvimento da premissa resultou fraca, com o uso de clichês nos discursos de amor próprio e autocuidado.

A performer, verdade seja dita, conseguiu angariar bons momentos, como o bonito efeito de sombras que, já quase no final, se dissipou na repetição de discurso que não leva a discussão para frente, mas revolve velhos clichês que fazem da performance uma experiência menos interessante do que poderia ser.

Eu não sei Você, mas eu sou Sapatão (Cotação: * * *)

Eu não sei Você, mas eu Sou Sapatão | Foto: Glenio Campregher
Eu não sei Você, mas eu Sou Sapatão | Foto: Glenio Campregher

Trabalho do Fanchecléticas Coletivas, a cena é uma ode ao lesbianismo e a tudo o que a sigla quer dizer dentro do movimento LGBTQI+. Inteligente, o grupo foge aos clichês usando do humor frente ao autodeboche num roteiro simples que, embebido em humor, foi gradativamente ganhando contornos dramáticos.

Mais à vontade no clima cômico, as atrizes oscilam no drama, mas conseguem um resultado bonito, ainda que prejudicadas pela direção de Débora Mc Quade que não soube construir o devido clímax, dando a Letícia Ângelo espaço para irregular intervenção musical através de letra-celebração de tom pueril.

Contudo, são problemas menores que não empanam completamente o brilho da cena que, com coragem e contando com a (previsível) cumplicidade do público, pinta o doído retrato da lesbofobia no Brasil, sem, contudo, deixar de celebrar o ato da existência.

Lentes de Contato (Cotação: * *)

Lentes de Contato | Foto: Glenio Campregher
Lentes de Contato | Foto: Glenio Campregher

É sintomático que um monólogo escrito e dirigido por quem deseja estrelá-lo caia, invariavelmente, no campo de certo egocentrismo cênico. Suzana Araújo cai justamente nesta armadilha ao tentar, através de Lentes de Contato, perfilar sua pesquisa acerca de seu próprio processo de subjetivação enquanto mulher gorda e periférica.

A grande questão é que, apesar de promissor, falta a atriz uma direção que a norteie melhor para além dos (bons) conceitos cênicos que tenta traçar, e tire de seu espetáculo o teor monótono e monocórdio que o ronda, além de desenvolver melhor o fiapo de dramaturgia criado para dar vazão a performance.

Re-tratos (Cotação: * * * *)

Re-tratos | Foto: Glenio Campregher
Re-tratos | Foto: Glenio Campregher

Encerrando a última noite do Festival, Re-Tratos, parceria da Cia. Les Trois Ciés com o grupo As Três Chaves, bebe, direta ou indiretamente, na fonte dos universos de Nelson Rodrigues (Álbum de Família), William Shakespeare (Macbeth) e Federico García Lorca (A Casa de Bernarda Alba) para contar, através da figura de corpos-bonecos para retratar a história de uma família formada apenas por mulheres, onde cada membro tenta lidar com as trágicas histórias que tendem a morrer no seio familiar.

Em tom soturno, os grupos constróem excelente encenação da dramaturgia de Eros P. Galvão (que também assina a – boa – direção) favorecidos pela trilha de Alice Cabral e Cécile Audebert, encerrando o Festival Cenas Curtas como um dos trabalhos mais instigantes a passar pelo Teatro Wanda Fernandes nestas cinco noites.

O Festival Cenas Curtas acontece até hoje, domingo, 29, no Galpão Cine Horto, a partir das 18h com a festa Bug do Milênio! Eu Nasci há 20 Anos Atrás! De 99 pra 2000 – Réveillon do Cine Horto, além de show de Marcelo Veronez e do DJ Fê Linz. Os ingressos custam de R$ 10,00 (meia) a R$ 20,00 (inteira). A programação também conta com debate para a discussão das cenas do dia anterior, com ingressos gratuitos.

A reportagem viajou a convite da produção do Festival