Uma Lágrima para Alfredo | Foto: Divulgação
Uma Lágrima para Alfredo | Foto: Divulgação

Ator que se habituou a dar vida a figuras femininas criando técnica que, diferente da maioria dos atores que se propõem a empreitada, foge a qualquer estereótipo ou caricatura, Eduardo Martini coleciona personagens que se sobressaem não apenas pelo humor, mas também pela delicadeza e construção metódica pela qual passam dentro de deu filtro.

Neste panteão se destacam as ilustres Neide Boa Sorte, figura bufônica que abusa de comicidade politicamente incorreta sem jamais cair na vulgaridade, e a delicada Valentina, a mãe que sofre da síndrome do ninho vazio em O Filho da Mãe, comédia de Regiane Antonini, e um dos melhores trabalhos de Martini em cena. Ou mesmo sua hilária Alice, excepcional ponto fora da curva no passo maldado da comédia Contos de Barbas.

Yolanda, a co-protagonista de Uma Lágrima para Alfredo, comédia que estreou na noite de ontem, terça-feira, e permanece em cartaz até novembro, no Teatro Folha, é outra destas construções metódicas que impedem a caricatura farsesca da figura feminina no corpo de um homem, fórmula usada à exaustão nas comédias paulistanas.

Escrita por Raphael Gama (que divide a cena com Martini), Uma Lágrima para Alfredo é comédia leve e despretensiosa sobre amenidades e até lugares-comuns da vida conjugal, posta sob ótica analítica ao colocar em cena duas senhoras, Yolanda (Martini) e Dulce (Gama), na sala de espera de um hospital enquanto esperam pelo óbito eminente dos respectivos maridos.

Os diálogos triviais que norteiam todo o espetáculo funcionam justamente por, de antemão, já desprender a peça de qualquer pretensão. Nem Gama e nem Martini tentam reinventar a roda cômica para contar a história de duas senhoras que lidam com as agruras do envelhecimento e do longo período de matrimônio.

É claro que a peça também não segue por nenhum caminho que já não seja amplamente conhecido. O texto de Raphael Gama trabalha com previsibilidades óbvias e, talvez por isso consiga diálogo sólido e pertinente com o público. Usando de signos herdados do besteirol popularizado na década de 1980, a peça, entre piadas, diverte.

No papel da espanhola Yolanda, Martini encontra registro mais sóbrio, ainda que sublinhando o sangue quente e as intempéries da personagem, conseguindo momentos ternos, utilizando recursos que lhe garantem grandes momentos conquistados apenas com o olhar, dosando a comicidade para privilegiar o sofrimento desta mulher que se descobre enlutada e traída ao mesmo tempo.

Já Gama opta por registro mais histriônico que, por vezes, fica a beira de uma caricatura, e que até funciona para angariar o riso da plateia, mas serve pouco a história. O ator, contudo, encontra bonito tom no tempo da delicadeza já ao final do espetáculo, quando dosa maneirismos e não cede ao melodrama, conseguindo cativar em bonito momento cênico.

O melodrama, aliás, é um perigo que ronda toda a encenação que jamais sucumbe, muito graças à certeira direção de Martini, que, compreendendo o perigo, injeta leveza e humor a momentos que poderiam levar a peça para o chão (ainda que ameace perder a mão em cena longa de comédia corporal).

Focada no trabalho dos atores e no desenvolvimento do texto, Uma Lágrima para Alfredo até se redime do desenho de luz pouco agregador de Rosana Ferrarezzi, ou dos arranjos chapados de Jonatham Harold para temas como a bonita valsa A Deusa da Minha Rua, composta por Newton Teixeira e Jorge Faraj, e lançada por Silvio Caldas em 1939. O tema perdeu parte de seu brilho musical, mas ganhou bonito tratamento cênico.

Em cartaz todas as terças-feiras até o dia 12 e novembro, Uma Lágrima para Alfredo é divertido espetáculo sem pretensões de ser nada além do que de fato é: um bom programa leve para uma terça-feira à noite. E é justamente neste autoconhecimento que mora seu triunfo.

SERVIÇO:

Data: 03 de setembro a 12 de novembro (terças-feiras)

Local: Teatro Folha – São Paulo (SP)

Endereço: Avenida Higienópolis, 618 – Shopping Higienópolis

Horário: 21h

Preço do ingresso: R$ 30,00 (meia) a R$ 60,00 (inteira)