Atrium Carceri | Foto: Divulgacao
Atrium Carceri | Foto: Divulgacao

Há quatro anos em cartaz, enfileirando sucessivas turnês e temporadas, o solo Atrium Carceri, estrelado por Mário Goes, derrubou barreiras linguísticas e garantiu ao ator dois prêmios de interpretação em diferentes festivais de Cuba. De fato, o trabalho de Goes é o ponto mais alto do espetáculo escrito por João Guerreyro e dirigido por Edhuardo Osorio, em cartaz até o dia 30 de outubro, quarta-feira, na Giostri Livraria Teatro.

Em cena como um padre que vive um amor nefasto, pondo em contradição seus ensinamentos cristãos e lidando diretamente com os traumas de um abuso na infância, Goes alcança registro impressionante frente ao texto friccionado de Guerreyro que, apesar dos problemas, encontra ótima moradia na direção de Osorio.

O diretor compreende a necessidade de pôr em cena um ator de registro intenso a fim de sublinhar o dinamismo de um texto que resulta oscilante frente a algumas armadilhas, como o sentimentalismo de uma história materna que soa mais interessante quando traça paralelos entre as tiranias maternas e religiosas.

Falta no texto o dinamismo feérico que sobra a Mário Goes, ator que, à medida que a peça corre, fica a beira de cair na interpretação histriônica, sem, contudo, comprometer o resultado final do espetáculo. Mérito de Edhuardo Osorio, diretor que compreende bem as necessidades cênicas de uma peça de difícil digestão.

Articulada, a encenação abusa de bonito desenho criado por uma luz singela criada por Georgia Ramos, enquanto flerta com certo registro lúdico na construção de uma personagem que, devota a sua fé, vive uma crise interna externalizada através de bonito jogo cênico.

Se há certa oscilação num texto que poderia render mais se comunicação inteligível, a encenação consegue desdobrá-lo a ponto de facilitar e estabelecer uma relação do público com o ator, num desempenho que, levado em consideração o caráter friccionado e intimista da proposta, de fato, impressiona.