Mulheres de Shakespeare | Foto: Ary Brandi
Mulheres de Shakespeare | Foto: Ary Brandi

Prática comum em países da Europa e nos Estados Unidos, a montagem sob análise de espetáculos voltados para o universo de nomes como Anton Tchékhov, Eugène O’Neill, Bertold Brecht, Tennessee Williams e William Shakespeare, entre outros, ajudou o teatro ocidental do final do milênio passado a ganhar fôlego sem deixar para trás a história daqueles que ajudaram a construí-lo.

No Brasil, a prática não é inédita, nem tampouco bissexta nos palcos. Espetáculos como Diga que Você já me Esqueceu, de Dan Rosseto (sobre o universo de Nelson Rodrigues), Chorávamos Terra Ontem a Noite, de Eduardo Ruiz (com referências a Tchekhov) e Abre a Janela e Deixa Entrar o ar Puro e o sol da Manhã, de Antônio Bivar (com toques brechtianos) são apenas três exemplos de textos que olham para frente sem deixar morrer as referências que os alicerçaram.

Mulheres de Shakespeare, peça de Thelma Guedes dirigida pelo inglês Luke Dixon, persegue o mesmo caminho ao propor, em primeira instância, análise minuciosa do universo do bardo inglês. Em cartaz até 27 de outubro no Teatro Itália, o espetáculo busca no próprio teatro a personagem matriz da ação que une duas atrizes numa noite chuvosa durante um teste que, presumivelmente, jamais acontece.

Tocadas pela infinidade das possibilidades do teatro, a dupla discute, analisa e interpreta as personagens femininas das obras de William Shakespeare, passando por títulos notórios, como Romeu & Julieta, Hamlet, Macbeth e Sonhos de uma Noite de Verão enquanto esperam a solução para um problema que, a risca, já se prevê frouxo.

Novelista com trabalhos importantes na dramaturgia brasileira, Guedes construiu, ao lado de Duca Rachid, assinatura contundente na teledramaturgia com a produção de obras como O Profeta (remake da telenovela homônima de Ivani Ribeiro), Cama de Gato, Cordel Encantado, Jóia Rara e, recentemente, Órfãos da Terra, todas exibidas pela Rede Globo.

É pena que esta mesma assinatura não se reproduza em Mulheres de Shakespeare, peça que peca, justamente, no texto que resulta bastante aquém de outros trabalhos da dramaturga, como o recente Van Gogh por Gauguin, onde exercita, com melhor resultado, a poesia teatral no embate entre o pintor holandês e o pintor francês.

Com argumento fraco, Guedes extrai um fiapo de dramaturgia na desculpa de tentar discutir sem profundidade as figuras femininas de Shakespeare. É verdade que a dramaturga desempenha papel difícil ao tentar tornar palatável um assunto que costuma interessar apenas a iniciados no assunto, contudo o texto assume contornos professorais e até previsíveis ao longo de uma hora.

A direção do inglês Luke Dixon também pouco faz para atenuar a sensação de monotonia que paira a medida que a peça avança na repetição de um argumento fraco. O que de fato eleva a encenação é o encontro cênico de Suzy Rêgo, em interpretação luminosa, com Ana Guasque que, embora oscile, consegue extrair bons momentos de suas cenas.

É bonita a delicadeza com a qual Guasque interpreta o solo da jovem Ofélia, de Hamlet, se livrando das muletas e cacoetes que assume desde o início do espetáculo em busca de gerar empatia com a plateia. A atriz cresce também na pele de uma das três bruxas videntes que norteiam a encenação da maldita Macbeth.

Suzy Rêgo, por sua vez, ameaça traçar caminhos seguros ao longo da encenação, mas quebra paradigmas e assume grandes contornos dramáticos ao dar vida a rainha Gertrudes (dando voz a discurso pueril de reencontro da personagem com suas próprias mazelas) e, claro, a icônica Lady Macbeth, privilegiada pelo bonito desenho de luz de Mário de Castro.

É especialmente bonita a ternura com a qual a atriz confessa jamais ter interpretado Julieta, num dos momentos de maior empatia do texto com a plateia que, verdade seja dita, se diverte com as piadas que, embora previsíveis, são bem usadas em cena.

Enfim, a despeito do argumento pueril e do texto frágil, Mulheres de Shakespeare se alicerça em bom embate cênico entre duas atrizes que, na ânsia de desvendar os mistérios do teatro do bardo inglês, valorizam encenação que poderia ser apenas monótona.

SERVIÇO

Data: 06 de setembro a 27 de outubro (sexta-feira a domingo)

Local: Teatro Itália – São Paulo (SP)

Endereço: Av. Ipiranga, 344 – República

Horário: 21h (sextas e sábados); 18h (domingos)

Preço do ingresso: R$ 30,00 (meia) a R$ 60,00 (inteira)