Festival do Amor
Festival do Amor

Ator referencial do teatro cômico paulistano, Eduardo Martini, desde a década de 2000, usa de uma sensibilidade aguçada para injetar insuspeita originalidade nos discursos geralmente banais acerca de sentimentos e posições emocionais que, não raro, descambam para um melodrama que pouco adiciona às discussões acerca de temas como dependência emocional, abuso e as múltiplas formas de se relacionar.

Atento a evolução do tempo e dos costumes, o ator manteve o caráter iconoclasta ao tratar de temas como o feminismo e o feminino em peças como O Filho da Mãe (2010) e Chá das Cinco (2014), masculinidade frágil em Na Medida do Possível (2003 e 2017), autoresponsabilidade em Papo com o Diabo (2017) e a valorização da memória nacional em A Rainha do Rádio (2018).

É, portanto, sintomático que, ao decidir falar de amor, Martini fuja a banalidade e a fragilidade dos discursos contemporâneos para discutir o sentimento sem as barreiras ideológicas da contemporaneidade. Em curtíssima temporada no Teatro Décio de Almeida Prado (recém rebatizado de Centro Cultural da Diversidade), no Itaim Bibi, o Festival do Amor, idealizado pelo ator, fugiu a discussão rasa acerca da diversidade proposta pelo centro para discutir, acima de tudo, afeto.

Ao voltar a pôr em cena duas de suas melhores direções, Depois Daquela Noite (2018) e Angel (2017), Martini desafina o coro dos contentes ao apresentar as entranhas das relações humanas, sejam elas homoafetivas ou heteronormativas.

Em cartaz todas as quintas-feiras (tendo encerrado temporada em 31 de outubro), Depois Daquela Noite expandiu o caráter poético do texto de Carlos Fernando Barros ao aproximar o público da relação de dois casais enfrentando diferentes crises conjugais, numa teia de acontecimentos folhetinescos que, ao apelar para a verosimilhança com o público, triunfa apresentando grandes interpretações.

No tom certo, Martini interpreta a figura parcimonial de uma relação homoafetiva, que tem medo de envolvimento e foge às convenções sociais adoradas por seu parceiro, interpretado por Theo Hoffman, uma figura que busca a ascensão social através das convenções da adoção de um filho e um casamento como manda o manual.

Do outro lado, Renato Scarpin, quando abandona as muletas do jogo cômico que tenta estabelecer ao início do espetáculo, e assume os contornos dramáticos de sua personagem, cresce no embate com Carol Hubner, atriz que entrega seu melhor desempenho neste espetáculo, provando-se uma das mais versáteis atrizes do teatro paulistano contemporâneo.

Se expõe as entranhas das mentiras e desgastes de uma relação neste que foi eleito um dos melhores espetáculos de 2018, Martini, também na direção, envereda pelos caminhos escusos do pequeno poder através de Angel, outro ótimo espetáculo assinado por Carlos Fernando Barros, desta vez com seu parceiro mais recorrente, o dramaturgo e novelista Victor Oliveira.

Ao analisar os jogos de poder e afeto de um bordel frequentado por uma famosa deputada (interpretada por uma sempre luminosa Cléo Ventura), Angel leva a discussão acerca do amor para um campo mais saboroso, pondo-o em fricção com temas como as falhas da natureza humana frente ao desejo de poder.

É nesta seara, porém de maneira bem menos enfática, que chega a cena Chorávamos Terra Ontem à Noite, espetáculo de Eduardo Ruiz dirigido por Carina Sacchelli em que Martini, ao lado de Elder Gattely, discute o afeto entre dois irmãos que, sobrevivendo separados, precisam lidar com um luto que, em tese, deveria aproximá-los.


Num texto essencialmente Tchekhoviano, a montagem foge a soluções simplistas e assume contornos desafiadores ao fazer de um embate familiar uma obra de dissecação acerca do suposto afeto intrínseco a laços familiares. É não apenas a melhor montagem do Festival, como também uma das melhores do vasto repertório de Martini, que, com seu Festival do Amor, fugiu a abordagens simplórias de um tema que não é definido por sexo ou por ideologia, mas sim pelo afeto que carrega e suas idiossincrasias. Uma iniciativa tão corajosa quanto incômoda.