Apareceu a Margarida | Foto: Divulgacao
Apareceu a Margarida | Foto: Divulgacao

Quando foi encenado originalmente em 1973, o monólogo Apareceu a Margarida, de Roberto Athayde, contava com dois elementos essenciais para seu sucesso: o período de chumbo da ditadura militar, vigente no Brasil de então há quase 10 anos, e a presença luminosa e já mítica de Marília Pêra (1943-2015) na pele da professora do quinto ano primário com tendências autoritárias.

Numa crítica ácida e ferrenha ao regime ditador vigente, ainda hoje é uma surpresa que a peça tenha sido apresentada praticamente na íntegra, com suas mais de duas horas, ao longo de todo o período – encerrado em 1985. Desde então, Marília Pêra voltou eventualmente ao texto para turnês e apresentações esporádicas sustentadas, basicamente, pela força da presença da atriz e por um saudosismo preciosista de vê-la na pele daquela que foi sua personagem mais icônica no teatro.

Há 12 anos, o encontro do diretor Bruno Garcia com a atriz Marília Medina proporcionou a reencenação da obra, com o texto original e na íntegra, a fim de, abstratamente, discutir os regimes totalitários presentes na figura de Dona Margarida, a professora do quinto ano primário que vê em seus alunos a necessidade de educação tomando como base o totalitarismo de uma voz única – qualquer semelhança com boa parte do sistema educacional não é mera coincidência.

Ao reestrear em São Paulo neste ano de 2019 (dois anos após sua última passagem pela capital), Apareceu a Margarida ganha novo fôlego frente aos flertes totalitários e autoritários do governo de Jair Messias Bolsonaro (PSL) e ao processo reacionário das plateias ao redor do país. O texto de Athayde, embora provoque certa estranheza inicial, com a (falsa) impressão de ter envelhecido mal, ganha contornos cada vez mais contemporâneos sem que para isso precise de qualquer atualização ou caco desmedido.

Tal qual escrito em 1973, Apareceu a Margarida é uma peça capaz de ainda mexer com os ânimos de uma plateia que é obrigada a sair da inércia desde o momento em que a famigerada aula tem início. O jogo do espetáculo com o público não é apenas essencial para a encenação, mas é, também e principalmente, uma necessidade do público frente a figura iconoclasta de Dona Margarida.

O retrato de temas que ainda parecem chocar parte da audiência – o abuso de poder, as relações homoafetivas, a nudez, a sexualidade, a abordagem do uso de drogas e alguma escatologia – ressoa numa atualidade assustadora, de um texto que, de fato, não envelheceu mal, mas precisa do campo certo para encontrar seu público.

E, tal qual há 46 anos, a obra de Athayde encontra solo fértil, tanto na política quanto na ditadura de costumes contemporâneos, sendo capaz de contestar ambos os lados de uma polarização. Mas, a despeito do bom momento histórico, há outro elemento que torna Dona Margarida personagem de essência atemporal: sua intérprete.

Na pele da ditadora escolar, Marília Medina é o que, de fato, avaliza a encenação como uma obra de contestação histórica. Sua luminosa Margarida passeia com naturalidade entre o histrionismo e a melancolia numa interpretação que não se intimida com as respostas nem sempre calorosas do público.

Desafiando a animosidade e a letargia de uma plateia, Marília toma o jogo cênico para si, muito favorecida pela direção inteligente de Bruno Garcia e pela excelente direção de movimento de Duda Maia, mas, acima de tudo, ciente de seu poder em cena ao desafiar o público a todo o instante. Sua cena de plateia quebra com as barreiras pré-estabelecidas da quarta parede e faz crescer uma encenação que, a princípio, poderia soar trivial, mas foge a qualquer armadilha cênica graças a força desta destemida atriz que, em cena, se põe soberana, numa construção comprada com facilidade.

Ora em cartaz no Teatro Eva Herz até dezembro, Apareceu a Margarida ganha novos contornos frente não apenas ao cenário político-social deste último ano, mas também, e principalmente, pelo amadurecimento de uma atriz que, há 12 anos, vem fazendo de Dona Margarida um estandarte da batalha contra todo e qualquer tipo de autoritarismo numa das montagens mais contundentes em cartaz na cidade.

SERVIÇO:

Data: 03 de outubro a 05 de dezembro (quintas-feiras)

Local: Teatro Eva Herz – São Paulo (SP)

Endereço: Av. Paulista, 2073 – Bela Vista – Conjunto Nacional

Horário: 21h

Preço do ingresso: R$ 25,00 (meia) a R$ 50,00 (inteira)