As Crianças | Foto: Guga Melgar
As Crianças | Foto: Guga Melgar

Tradutor, versionista e pesquisador teatral, Diego Teza é profissional hábil na pesca e na tradução de pérolas dramatúrgicas ao redor do mundo. O autor foi responsável pelo garimpo de textos do quilate de O Jornal The Rolling Stone, que, dirigido por Lázaro Ramos e Kiko Mascarenhas, se tornou um dos melhores espetáculos de 2018, e O Camareiro, espetáculo responsável pelo retorno de Tarcísio Meira aos palcos após hiato de 20 anos, e ora em cartaz mais uma vez na cidade, no Teatro FAAP.

É, portanto, sintomático que, tendo o tradutor assinado a versão brasileira de As Crianças, texto da dramaturga inglesa Lucy Kirkwood, a obra esbarre em altas expectativas do público que pode conferir a encenação até este domingo, 17, no Teatro do Sesc 24 de Maio, na República, zona central da capital.

É inegável que a peça cumpre toda e qualquer expectativa quando se refere a dramaturgia a autora inglesa, com tons clássicos do teatro londrino, e ao excelente jogo cênico do elenco formado por Andréa Dantas, Analu Prestes e Mário Borges que, juntos, esbanjam companheirismo e uma troca baseada, principalmente, no olhar.

Borges, que já havia se destacado na encenação de A Profissão da Sra. Warren, de Bernard Shaw sob a direção de Marco Antônio Pâmio, abandona o registro bonachão de seu Praed para mergulhar no drama sórdido e tragicômico de Robin, físico aposentado que vive com sua esposa Dayse (Analu Prestes), também aposentada na mesma profissão, em uma casa afastada. O dia a dia pacato do casal é desestruturado com a chegada de Rose (Andrea Dantas), uma ex-colega dos tempos em que trabalhavam numa usina nuclear.

Embora conserve elementos do teatro clássico, o texto de Kirkwood, indicado ao Prêmio Tony, em 2018, é embebido em modernidade, seja ao retratar um tema (acidentes causados pela radiação nuclear) com foco em discussões contemporâneas, seja pelo flerte com o teatro do absurdo moderno.

É com essa total e completa consciência que Analu Prestes constrói uma Dayse de tons opacos, representando uma letargia geracional e quase mórbida de uma mulher que, sabendo-se rodeada pela morte, trata da horta, cria plantas e tenta manter uma rotina baseada em exercícios físicos e alimentação saudável.

Por sua vez, Andréa Dantas busca o caminho oposto. Com um registro também monocórdio, a atriz expõe as angústias de sua personagem através da delicadeza basicamente do olhar, sem jamais soar trivial. O encontro dos três atores é o que movimenta a encenação construída em tons sóbrios e fugindo a qualquer realismo que afaste o público da essência do texto.

Diretor que ganhou destaque com a encenação de espetáculos excelentes como Tom na Fazenda e Insetos, Rodrigo Portella parece tropeçar em As Crianças numa montagem que ressoa pouco cativante. É verdade que, em momento algum, o espetáculo fica abaixo do grau de excelência exigido pela ótima ficha técnica reunida. A luz de Paulo César Medeiros, a trilha original de Marcello H. e Federico Puppi e os figurinos de Rita Murtinho, apenas para citar três elementos, elevam a excelência estética do espetáculo.

Entretanto, Portella opta por escolhas que, se não óbvias, resultam subaproveitadas, como a ideia de pôr o elenco para narrar as rubricas, numa ideia que soa pouco harmônica, e já soou melhor aproveitada em produção paulista anterior, “Entre”, de Eloísa Elena sob a direção de Yara de Novaes e Carlos Gradim.

Portella atenua o tom melodramático, sem jamais optar por uma segunda opção, como a tragédia que permeia as interpretações de seu elenco. Resulta bonito, porém pouco cativante um espetáculo que, com excelente time de atores e valorizado por sua ficha técnica, cambaleia, mas não decepciona.

SERVIÇO:

Data: 18 de outubro a 17 de novembro (quinta-feira a domingo)

Local: Teatro do Sesc 24 de Maio – São Paulo (SP)

Endereço: Rua 24 de Maio – República

Horário: 21h (quinta a sábado); 18h (domingo)

Preço dos ingressos: R$ 20,00 (meia) a R$ 40,00 (inteira) | Credencial Plena: R$ 12,00