Arap | Foto: Jady Forte
Arap | Foto: Jady Forte

É sintomático que, aos 64 anos de vida, após ter revisitado toda a sua trajetória para dar origem a biografia A Máscara do Improvável (Humana Letra), escrita por Dirceu Alves Jr., Elias Andreato queira pensar e discutir, em cena, a profissão do ator e tudo o que cerca esse universo habitado por profissionais vocacionados para o ofício de interpretar outras vidas.

Em Arap, solo seriado que passa a limpo a carreira de um ator e todos os percalços que o acompanham, Andreato abusa do minimalismo poético para dar vida ao arquétipo do ator em autodescoberta com sua profissão. 

O próprio ator, celebrado como um dos principais diretores do teatro paulistano desde o final da década de 1980, se põe a prova numa interpretação cheia de riscos e armadilhas cênicas naquele que é um de seus melhores desempenhos desde Van Gogh (1993), um de seus monólogos seminais que o tornaram referência na área da atuação.

Construindo uma dramaturgia friccionada, lírica e seriada, Andreato bebe na fonte de Fauzi Arap, o grande homenageado deste solo, sem jamais cair no simplismo de tentar interpretar o diretor ou copiar seus trejeitos e falas célebres. Andreato constrói um solo baseado na visão de Arap sobre o ofício das artes cênicas, sublinhando a crueldade e a insegurança do diretor que transformou os shows de Maria Bethânia em verdadeiros tratados sobre as artes cênicas.

Com a crueza de um ator seguro de si, Andreato foge a qualquer pretensão de se mostrar um virtuose do ofício que desempenha (infelizmente) com frequência irregular. A grandiosidade do ator e diretor em cena é medida, por exemplo, ao declamar, sem histrionismo, o monólogo clássico da obra Macbeth (1611), de William Shakespeare.


Numa interpretação construída no tempo da delicadeza cênica (e conversando, perfeitamente, com o desenho de luz pensado pelo multiartista), Elias Andreato faz de seu Arap grande experimento cênico sobre o desempenho do ofício do ator calcado no lirismo e na crueldade de um dos grandes diretores da história do teatro brasileiro, Fauzi Arap, e aquele que se tornou mais que seu discípulo, mas um diretor de igual importância cênica, Elias Andreato.

SERVIÇO:

Data: 14 de setembro a 07 de dezembro (sábados)

Local: Teatro Eva Herz – Conjunto Nacional (São Paulo – SP)

Endereço: Av. Paulista, 2073 – Bela Vista

Horário: 17h

Preço do ingresso: R$ 20,00 (meia) a R$ 40,00 (inteira)