Fábio Assunção e o diretor Zé Henrique de Paula nos bastidores de DogVille - Foto: Reprodução/ Instagram
Fábio Assunção e o diretor Zé Henrique de Paula nos bastidores de DogVille - Foto: Reprodução/ Instagram

A peça cinematográfica DogVille, do dinamarquês Lars Von Trier, estreia sua temporada em São Paulo nesta sexta-feira, dia 25 de janeiro, no Teatro Porto Seguro. O diretor do espetáculo, Zé Henrique de Paula, conversou sobre o processo criativo da montagem que é mundialmente conhecida pelo filme de mesmo nome, protagonizado por Nicole Kidman, em 2003.

Entre os assuntos abordados está o sucesso na temporada carioca, que durou sete semanas e resultou em indicações ao Prêmio Shell e Prêmio Cesgranrio. Zé Henrique de Paula conta também como são os ensaios com os 16 atores que integram o elenco, muito deles famosos, como Mel LisboaFábio Assunção, Bianca Byington, Blota Filho e Chris Couto. Em meio as polêmicas que possam surgir fora do espetáculo, como foi o caso de Fábio Assunção, o diretor garante que elas não afetam os trabalhos: “Dificilmente eu autorizo que isso entre dentro da sala de ensaio”, conta.

Mel Lisboa e Fábio Assunção em Dogville - De Lars Von Trier (Fotos: Ale Catan)
Mel Lisboa e Fábio Assunção em Dogville – De Lars Von Trier (Fotos: Ale Catan)

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Antes da conversa exclusiva com o Observatório do Teatro, e durante a coletiva de imprensa da peça, o diretor expressou sua insatisfação com os rumores de corte aos incentivos à cultura no Brasil. Ou seja, para Zé Henrique de Paula a desinformação sobre a Lei Rouanet é preocupante. Segundo o diretor: “As pessoas não entendem mais o que é a Lei Rouanet, que é de âmbito nacional. Temos leis de incentivo à cultura também no âmbito estadual e municipal. Mas o grande ataque de agora é a Lei Rouanet, um ataque completamente desprovido de consistência. As pessoas atacam uma coisa que se quer conhecem. Precisamos fazer um esforço por esse ser um mecanismo que faz girar, não só o teatro, mas também outras manifestações da cultura de nosso País. Ela corre riscos sérios e que hoje em dia são advindos boa parte da ignorância em torno do próprio mecanismo”, conta.

Sobre o diretor Zé Henrique de Paula:

Formado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Mackenzie e com pós-graduação em Artes Cênicas pela Escola de Comunicação e Artes da USP, o diretor, ator, figurinista e cenógrafo Zé Henrique de Paula, de 48 anos, entrou para o universo do teatro através da cenografia. Além disso, ele possui em seu currículo os prêmios Shell, APCA, Reverência, Aplauso Brasil e Arte Qualidade Brasil. Desde 2005 comanda o Núcleo Experimental, onde desenvolve um trabalho em grupo de repertório com ênfase na montagem de autores inéditos e textos referenciais.

Confira a íntegra da entrevista com Zé Henrique de Paula:

Observatório do Teatro – Qual a proposta principal que vocês querem transmitir ao público com esse espetáculo?
Zé Henrique de Paula – A peça é uma fábula que é dividida em capítulos. Da mesma forma como o filme também foi escrito. Então, como toda fábula, ela tem uma discussão moral. Durante o processo de ensaio discutimos muito sobre isso. Essas fábulas abordam e discutem diferentes aspectos da nossa moral. Para mim, a fábula de DogVille discute a utopia da bondade. Quem nunca escutou desde pequeno que precisa ser bom com todos a sua volta? O que é ser bom? Mesmo que a gente não fique pensando nisso a todo instante, existe sim um peso moral em relação à bondade. Já a fábula da peça traz uma sociedade que está completamente moldada pelos seus padrões morais e uma intrusa, que é quase como um ponto de luz tamanha sua bondade faz surgir sombras naquelas pessoas. Mas como eles lidam com suas próprias sombras? Nessa peça elas não vão lidar bem com isso. Então a principal coisa que queremos comunicar é esse duelo entre o que é ser bom e o que não seria ser bom. Não ser bom, necessariamente significa ser mal?

Observatório do Teatro – Por qual motivo optou pelo tradicional palco italiano ao invés de um espaço cênico mais contemporâneo?
Zé Henrique de Paula – Eu acho que quando a gente decidiu inverter o ponto de vista da peça e fazer um trabalho que flertasse com o cinema, o palco italiano já se fez consistente. Esse é o formato da plateia do cinema. Então a gente quis usar a plateia numa posição tradicional em relação ao palco para forçar um pouco esses momentos em que a linguagem fica mais difusa entre o teatro e o cinema.

Observatório do Teatro – DogVille já foi indicada para algumas premiações no Rio de Janeiro. Estão felizes com a repercussão?
Zé Henrique de Paula – Praticamente nenhum de nós faz teatro esperando premiações. Então isso acaba vindo como um coroamento muito especial e importante que entra para a carreira da peça. Tem sido tudo uma grande surpresa.

Observatório do Teatro – Em meio a tantas cenas fortes, como é ter um ator mirim (Dudu Ejchel) no elenco e qual os cuidados ou preparação dada para ele?
Zé Henrique de Paula – A mãe dele, Adriana, acompanha todos os ensaios e tutelou esse ator com quem eu já trabalhei anteriormente no musical Carrossel. Para Dogville também conversamos bastante com ele sobre os temas polêmicos. Além disso, ninguém melhor do que a própria mãe para tutelar seu filho.

Observatório do Teatro – O elenco da peça possui nomes famosos. Como lida com o ego dos atores enquanto diretor e como conduz os ensaios quando explode alguma polêmica particular deles?
Zé Henrique de Paula – Dificilmente eu autorizo que isso entre dentro da sala de ensaio. Mas eu não faço isso de maneira autoritária. A gente simplesmente é dedicado ao trabalho. Enquanto estamos no café falamos de tudo, mas na sala de ensaio somos uma equipe obcecada apenas pelo trabalho.

Observatório do Teatro – Quanto tempo vocês tiveram de ensaio no Rio? E agora para a estreia em São Paulo, como é a rotina?
Zé Henrique de Paula – Ensaiamos dois meses e meio, mais três semanas com a Inês Aranha (preparadora de elenco do Núcleo Experimental). Uma rotina de segunda a sexta, sendo seis horas por dia. Então o total deu cerca de três meses de ensaios. No Rio foi uma temporada boa, com 22 sessões e que deixou o elenco bem à vontade. Com isso, para São Paulo, fizemos apenas um ensaio de uma semana para eles retomarem, afinal, é o mesmo elenco e equipe.

Observatório do Teatro – Depois da temporada no Rio e agora em São Paulo, quais serão os próximos passos de DogVille?
Zé Henrique de Paula – Ela vai para outras capitais e os produtores estão com um projeto para levá-la para Portugal.

Elenco de Dogville - De Lars Von Trier (Fotos: Ale Catan)
Elenco de Dogville – De Lars Von Trier (Fotos: Ale Catan)

Sobre DogVille:

A pequena, pacata e obscura cidade de Dogville, onde residem poucas famílias aparentemente bondosas e acolhedoras, é abalada pela chegada inesperada de Grace. A forasteira misteriosa encontra a cidade após procurar abrigo para se esconder de um bando de gangsteres. Recebida por Tom Edison Jr., que, comovido pela sua situação, convence os outros moradores a acolhê-la. Grace, apesar de afirmar nunca ter trabalhado, decide oferecer seus serviços para as famílias de Dogville em agradecimento pela generosidade. Porém, um jogo perverso se instaura entre os moradores da cidade e a bela forasteira. Quanto mais ela se doa e expõe a sua fragilidade e bondade, mais os cidadãos de bem exigem e abusam dela. Como resultado, situações de extremos inimagináveis acontecem.

Serviço:

Com: Mel Lisboa, Eric Lenate, Fábio Assunção, Bianca Byington, Marcelo Villas Boas, Anna Toledo, Rodrigo Caetano, Gustavo Trestini. Fernanda Thurann, Thalles Cabral, Chris Couto, Blota Filho, Munir Pedrosa, Selma Egrei, Dudu Ejchel e Fernanda Couto.
Texto: Lars Von Trier.
Direção: Zé Henrique de Paula
Quando: De 25 de janeiro a 31 de março. Sexta e sábado, às 21h. Domingo, às 19h. Ingressos: R$ 50 a R$ 90. 100 min.
Classificação: 16 anos.
Onde: Teatro Porto Seguro – Alameda Barão de Piracicaba, nº 740, Campos Elíseos, São Paulo (SP). 496 lugares. Tel: (11) 3226-7300.