Sara Sarres | Foto: Cassiano Grandi
Sara Sarres | Foto: Cassiano Grandi

Foi em meados da década de 1990 que o então recém-estreado canal Multishow, um dos braços da Globosat, empresa do Grupo Globo de Comunicação, exibiu em sua também recém-pensada programação o making-off de Miss Saigon, musical inspirado na trágica ópera Madame Butterfly, do compositor italiano Giacomo Puccini, que estreou na Broadway em 1991 tendo como pano de fundo a Guerra do Vietnã.

Ainda com uma abrangência bastante restrita em sua audiência, quem poderia imaginar que justamente a transmissão dos bastidores de um musical maciçamente desconhecido no Brasil seria o ponto que faria efervescer os desejos de uma jovem soprano de Brasília a estender seus estudos de música clássica para os beltings do canto do teatro musical.

Mas foi justamente aí que nasceu o desejo de uma, então, muito jovem Sara Sarres de viver da rotina de um gênero de teatro que ela mesma ajudaria a popularizar na década seguinte. Estudante da Escola de Música de Brasília, Sarres estreou nos palcos aos 15 anos de idade quando estreou a ópera A Flauta Mágica, de Wolfgang Amadeus, numa montagem do Coro Lírico de Brasília.

A partir daí, construiu seu próprio caminho, compondo o elenco de outros títulos clássicos, como Carmen, de Georges Bizet, e La Bohème, do mesmo Puccini que compôs a ópera que inspiraria o musical que levaria a atriz a querer enveredar por um gênero menos clássico das artes.

Partindo daquela primeira impressão, Sarres capitaneou, ainda em sua terra natal, a criação de uma pequena companhia de teatro amador para estudar e montar pequenos clássicos do teatro musical. 

“Era uma companhia para estudar mesmo, mas até fazíamos pequenos espetáculos, era uma coisa na paixão, nada profissional. Por um centavo, a gente fazia”, relembra a atriz que, mesmo no amadorismo, chegou a apresentar uma versão da ópera-rock Jesus Cristo Superstar, de Andrew Lloyd Webber, em um estádio em Brasília.

Contudo, tanto o profissionalismo quanto o reconhecimento na área só chegaria no início da década seguinte, quando, ainda em 2000, desbancou uma série de candidatas para dar vida a Cosette, uma das protagonistas de Os Miseráveis, o épico musical baseado no romance homônimo de Victor Hugo que levou oito dos doze Prêmios Tony ao qual foi indicado a época de sua primeira montagem na Broadway, em 1987.

A partir daí, a estrela de Sarres não parou mais de brilhar. Após sua passagem por Os Miseráveis, musical que se tornou marco na revitalização do gênero trazido ao Brasil pela força de Bibi Ferreira ainda na década de 1960, Sarres compôs o elenco da primeira montagem paulista de Cole Porter – Ele Nunca Disse que me Amava, clássico da dupla de diretores Charles Möeller e Claudio Botelho, protagonizou o hit da contracultura Godspell, sob a direção de Miguel Falabella, e assumiu um dos maiores desafios de sua carreira.

O Fantasma da Ópera

Escolhida pelo próprio Andrew Lloyd Webber, compositor inglês autor de alguns dos clássicos mais populares da Broadway e do West End, Sarres protagonizou a versão brasileira de O Fantasma da Ópera, o musical mais popular da história da Broadway, há 33 anos em cartaz ininterruptamente.

A partir de então, a artista passou a figurar no imaginário dos fãs do gênero não apenas como uma das principais expoentes dos musicais do Brasil, mas também como uma espécie de diva, título esse prontamente recusado.

“Não me vejo assim”, garante. “Eu sou uma apaixonada, uma artista que ama o que faz e é extremamente comprometida, por isso não saí de cartaz, emendando uma coisa na outra” esclarece Sarres que, contudo, não deixa de apontar aquelas que, na sua concepção, merecem o verdadeiro título: “Para mim, divas são Bibi e Marília, que estão no panteão do teatro musical, duas referências”.

De fato, desde que começou, Sarres vem emendando um trabalho no outro. Encenou West Side Story (2008), sob a direção de Jorge Takla, Cats (2010), Shrek (2012), A Família Addams – O Musical (2013) – alternando o papel de Morticia Addams com Marisa Orth -, A Madrinha Embriagada (2013), O Home de La Mancha (2014), Annie (2018), Billy Elliot (2019) e agora se prepara para protagonizar, ao lado do jovem Arthur Berges, A Escola do Rock, com estreia agendada para 15 de agosto, no Teatro Santander, em São Paulo.

A Madrinha Embriagada

Entre tantos trabalhos, a brasiliense de 39 anos ainda é graduanda em fonoaudiologia pela Santa Casa, faz estágios obrigatórios enquanto ensaia 10 horas por dia e auxilia cantores sem condições financeiras, além de equilibrar uma agenda de aulas semanais em seu Estúdio S, criado justamente para que pudesse ministrar aulas de canto e cuidados com a voz. Para conseguir dar conta da bateria de afazeres em apenas 24 horas, a atriz dorme apenas quatro horas por noite, “o que é péssimo para a voz”, alerta.

Entretanto, essa é a rotina a qual se acostumou, e já não consegue mais se desvencilhar. “Meus pais dizem que eu quero abraçar o mundo com as pernas, mas acho que esse é o momento de fazer tudo o que eu quero, enquanto sou jovem, tenho energia, quero que as coisas aconteçam”, garante a atriz que, justamente por falta de tempo, não é tão vista na televisão, por exemplo, quanto poderia.

“Eu adoraria levar minha carreira para esse lugar, mas me falta tempo, não consigo fazer testes, por exemplo”, diz Sarres que até chegou a compor o elenco de Dona Xepa, novela exibida pela Rede Record em 2013 e protagonizada por Ângela Leal.

De lá pra cá, contudo, não apareceu mais na telinha, mas conseguiu um espaço na agenda para viajar o mundo na turnê mundial de O Fantasma da Ópera, musical que a sagrou como um dos nomes da linha de frente do teatro musical nacional e que, mais uma vez escolhida por Andrew Lloyd Webber, lhe permitiu representar o Brasil em apresentações em lugares como a China, por exemplo.

Sara Sarres

Entretanto, uma carreira internacional não está nos planos imediatos da atriz, membro do Sindicato dos Atores Britânicos. Seu foco segue sendo  fomentação do gênero no Brasil. “Minha carreira e muito engajada aqui, nunca senti a necessidade de sair do Brasil, pelo contrário. Eu amo fazer essa história no Brasil. Se a gente tem esse know-how, esse conhecimento, essa paixão para manter a máquina borbulhando, ainda mais agora, num período tão difícil, em que fomos mirados de maneira muito agressiva”, diz a atriz se referindo aos constantes ataques ao setor cultural vindos de apoiadores e do próprio governo atual.

“É como lutar para que o teatro musical sobreviva, permaneça, para que as novas gerações usufruam daquilo que a gente plantou por tantos anos, com tanto amor, apreço, vontade de ver a coisa crescer e se expandir, para que as pessoas tenham trabalhos grandes e sólidos, então me dá um desespero pensar em sair daqui nesse momento”, garante a atriz que, apesar do cenário, se diz esperançosa em ver uma mudança na visão de alguns setores do público quanto a temas como a Lei Rouanet.

Eu ouço muita gente dizer que está certo, precisa ter corte, tem que focar em outras coisas, eu ouço de tudo! Mas tenho a esperança de que a gente vai conseguir, nem que seja goela abaixo, ali falando no fim de cada espetáculo, comentando em cada entrevista, usar nossa voz ativa de maneira a conscientizar as pessoas da importância da educação, porque pra mim a cultura é o reflexo da educação, da identidade de um povo”, explica a artista, que segue:

“Eu não consigo ver uma coisa separada de outra. Dizer que não pode fomentar a cultura é dizer que a população não tem direito a educação, então isso é muito sério, muito grave. Daí como reverter isso de uma maneira que seja realmente elucidativa, educativa, fazer com que parem para pensar e tirar essa raiva do coração, dizendo que pessoas famosas roubaram o suado dinheiro dos impostos… não é assim. Os ladrões estão em todos os lugares, as pessoas quando querem fazer mal, fazem de todo o jeito em todos os setores, não é possível querer mirar a educação por causa de quatro, cinco pessoas que agiram de má fé com a Lei Rouanet”, garante Sarres que não abriu seu voto durante as eleições – nem tampouco foi questionada nesta entrevista.

Shrek – O Musical

A atriz, entretanto, não poupa críticas ao mercado cultural desenvolvido de forma irregular em Brasília. Celeiro de grandes talentos de todos os setores da cultura, a capital federal exportou apenas para o teatro musical nomes como Saulo Vasconcelos, Fred Silveira, Paula Capovilla, Sandro Sabbas, Corina Sabbas e a própria Sarres, que enxerga a cultura em sua cidade natal tratada de forma sucateada.

“Brasília infelizmente tem questões políticas e péssimas gestões, mesmo na ópera. Lá acontece muito calote, são produtores que não fazem a coisa corretamente. Eu mesma não tenho vontade nenhuma de levar nada para lá, porque já levei muito calote. E é muito triste isso. Temos o belíssimo Teatro Nacional, que está sucateado há cinco anos! É triste ver o que Brasília poderia ser, e o que é. Todo mundo que é de lá sente isso”.

Entretanto, a despeito do sucateamento cultural que assola sua cidade, Sarres não desiste de um desejo antigo: quer passar a produzir. “Acho que vai chegar um momento em que vai acontecer naturalmente. Mas quero fazer com que as coisas aconteçam”, garante a artista que não enxerga na possibilidade de produção um veículo apenas para o fomento da sua profissão, mas sim para o subsídio de outros talentos.

Eu penso tanto num todo, porque nem sempre o que seria interessante fazer é para mim. É preciso ter a consciência e saber o que é seu perfil, qual seu momento, e quando eu começar a produzir, eu vou estar em outro momento, e tudo bem, faz parte. A gente vê tanta gente boa chegando. Se eu tenho esse conhecimento, por que não fazer para outra pessoa brilhar?”, questiona.

Entretanto, não descarta espetáculos próprios. A atriz tem, por exemplo, o desejo de atuar em um monólogo que não revela o nome nem sob tortura. “Está bem guardado aqui no meu coração”, diz, assim como também despista sobre a possibilidade de seguir o caminho de outras colegas do gênero, e criar um show solo. “Pode ser que aconteça”, responde em um mistério maroto.

Fã de Bibi Ferreira, a quem chegou a homenagear no palco ao dar vida a Aldonza/ Dulcineia, em O Homem de La Mancha, papel pelo qual foi indicada pela segunda vez a categoria de Melhor Atriz no Prêmio Bibi Ferreira, Sarres, com quase 20 anos de carreira, coleciona prestígio e popularidade no meio sem jamais perder a consciência de seu ofício.

O Homem de La Mancha

“Precisei estudar muito para fazer o que eu faço, o que eu sei. Tive que fazer muita aula, fui para fora do Brasil, eu precisava estudar. Quando acabou a temporada do ‘Fantasma’, fui para Londres estudar interpretação, porque eu sempre penso no que eu ainda preciso dominar, sempre foi assim, eu não nasci pronta. Tem muita gente, como o Marcos Tumura, por exemplo, que nunca fez aula de canto, e tinha aquela voz”, relembra, sem controlar a emoção de lembrar do amigo, morto em 2017 aos 49 anos após sofrer um infarto.

Com dezenas de personagens importantes no currículo e sem se dar por satisfeita, a artista acalanta o desejo de trabalhar com diretores como José Possi Neto e Zé Henrique de Paula, e aponta para a vontade de desempenhar papéis que ainda não desempenhou, tendo uma clara preferência: “me falta uma vilã”, pontua sem medo e com a clara consciência de que, assim como aquelas que lhe deram o epíteto de “diva” por sua competência e talento, esta também virá.

Sara Sarres estreia no próximo dia 15 de agosto A Escola do Rock, musical de Andrew Lloyd Webber, Julian Fellowes e Glenn Slater, no Teatro Santander, no shopping JK Iguatemi, na Vila Olímpia, zona sul de São Paulo. As sessões são de quinta a domingo, às 20h30 (quintas e sextas), e com sessão dupla no fim de semana, às 15h e às 18h30. Os ingressos custam de R$ 75,00 a R$ 310,00.