Hedda Gabler | Foto: Guto Garrote
Hedda Gabler | Foto: Guto Garrote

Peça escrita em 1891 pelo dramaturgo norueguês Henrik Ibsen, Hedda Gabler se estabeleceu ao longo do século passado como um dos grandes títulos da dramaturgia mundial, por seu caráter moderno, flertando com conceitos que se tornariam acadêmicos muitos anos após sua primeira encenação, como o existencialismo de Jean Paul Sartre.

Considerado também uma espécie de auto resposta do autor a seu próprio clássico Casa de Bonecas, Hedda Gabler é, também, uma das peças mais difíceis do dramaturgo norueguês, tendo recebido no Brasil montagens icônicas, com nomes como Dina Sfat e Virginia Cavendish no teatro, e Fernanda Montenegro e Wanda Kosmo na TV.

Em montagem da Não Companhia de Teatro que saiu de cartaz na noite de domingo, 28, Hedda Gabler recebe novo fôlego sublinhando a atemporalidade do texto e das questões levantadas por Ibsen que, em pleno século XIX, e também adicionando certa modernidade, provando ser esta uma das assinaturas da companhia que já encenou espetáculos como o controvertido musical biográfico Rita Lee Mora ao Lado, o clássico Otelo, de William Shakespeare, e o drama Pedras Azuis, de Márcio Macena.

Sob a fluente tradução de Leonardo Silva Pinto, a obra ganha boa adaptação da própria companhia, que jamais descaracteriza ou descontextualiza o texto, conseguindo um ritmo fluente que não se desconecta do público em nenhum momento, e ganha pontos por não apelar, por exemplo, para nenhum tipo de simplismo textual.

Encabeçado por Mel Lisboa, atriz que encontrou no teatro a principal seara para se sagrar uma das melhores e sua geração, o elenco constrói ótima sintonia cênica. Na pele do intelectual Jorge Tesman, Eduardo Pelizzari consegue uma caracterização impressionante, não apenas pelo (ótimo) visagismo de Dicko Lorenzo, mas também por uma de suas melhores construções cênicas.

Na pele do juiz Brack, Samuel de Assis segue também em ótimas construções. Desde Rita Lee Mora ao Lado, o ator tem conseguido justos destaques em cena, visto que, na construção do juiz de moral dúbia, angaria para si alguns dos melhores momentos do espetáculo, com uma insuspeita comicidade.

Com uma construção correta, evitando qualquer tipo de arroubo interpretativo, Rafael Maia encontra um bom tom para seu Eilert Lovborg, assim como Carol Carreiro e Flávia Strongolli, nas peles de Thea Elvsted e da criada Berthe, que, no papel de coadjuvantes, defendem bem suas personagens lhes dando a dimensão exata para a construção da trama.

Mas, é inegável – e até previsível – que o destaque fique mesmo por conta de Mel Lisboa, em interpretação luminosa de Hedda, personagem que, em outras leituras, poderia ganhar ares excessivamente soturnos, mas que ressurge solar pelo olhar de Lisboa, adicionando esta personagem a sua coleção, nas quais estão nomes como Rita Lee (Rita Lee Mora ao Lado), Desdêmona (Otelo), Celeste (Boca de Ouro) e Grace (Dogville), entre outras.

Entretanto, é inegável também que o mérito se encontra na inteligente direção de Márcio Macena, que leva Hedda Gabler a uma encenação de tons despretensiosos, aproximando a história do público e afastando qualquer caráter invariavelmente datado da obra. O diretor conserva o tom clássico do texto, mas injeta uma contemporaneidade singela, sem jamais descaracterizar a obra.

Mesmo que o cenário pensado por Macena com Morena Carvalho não seja dos melhores já idealizados pelo diretor, os figurinos desenhados também por Macena ao lado de Carol Badra são bonitos e constroem um clima que transporta a encenação sem necessitar de grandes artefatos cênicos, principalmente banhado pela boa luz de César Pivetti e Vânia Jaconis.

Ainda que a atmosfera do Espaço Parlapatões não resulte essencialmente adequada para a encenação, há certo olhar de resistência contracultural nesta montagem que, sem jamais negar os moldes do teatro clássico feito por Ibsen, lhe injeta um fôlego que subverte a linguagem e triunfa.

SERVIÇO:

Este espetáculo está fora de cartaz.