Roberto Alvim | Foto: Arnaldo Pereira
Roberto Alvim | Foto: Arnaldo Pereira

Há seis anos em atividade, o grupo paulistano A Motosserra Perfumada divulgou na tarde de ontem, 27, uma carta na qual acusa o diretor teatral e Diretor do Centro de Artes Cênicas da FUNARTE Roberto Alvim de censura. No documento, intitulado “Roberto Alvim censura peça teatral em São Paulo com base em sua sinopse”, o grupo alega ser o responsável pela peça que teria sido censurada por Alvim e causado a exoneração da coordenadora do Complexo Cultural da FUNARTE, Maria Ester Monteiro, como noticiado pelo jornal O Globo no último sábado, 24 de agosto.

O grupo afirma que “Apesar da matéria velar o nome do grupo e do espetáculo envolvido na polêmica, ao ler nossa sinopse praticamente copiada no jornal, não tivemos dúvida de que se tratava de RES PUBLICA 2023, e de que estávamos, àquela altura, sofrendo um escandaloso processo de censura; (…)”.

O grupo diz ainda que recebeu o comunicado da coordenadora interina da FUNARTE, Sharine Melo, e do administrador, Ricardo Dias, de que seu espetáculo teria a temporada, de fato, suspensa, e acusa Roberto Alvim de censurar o espetáculo tendo como base apenas sua sinopse.

“Ele não leu a peça. Ele nunca viu o espetáculo, que ainda nem existe. Mesmo assim, sua assessoria afirmou, no e-mail que enviou à Coordenação local da FUNARTE, no dia 18 de agosto, que a peça RES PUBLICA 2023 não reúne “qualidade artística” para ocupar uma das salas do Complexo”, diz o documento.

“Com esse gesto de censura – que, a rigor, nem lhe caberia, afinal, sua função no Governo é administrativa e não curatorial, cabendo-lhe no máximo nomear curadores, não curar espetáculos – Roberto Alvim mandou avisar que não medirá esforços contra peças que exponham qualquer conteúdo que lhe pareça crítico com relação ao Governo, fazendo prevalecer a patrulha ideológica sobre qualquer critério artístico. No fundo, o novo Diretor do Ceacen da FUNARTE apenas cumpre a surrada agenda do bolsonarismo: criar polêmicas morais e ideológicas, principalmente com artistas, para adiar o conhecimento público da inoperância do seu Governo, da debilidade administrativa e mental do seu Presidente e da farra dos interesses privados sobre as riquezas materiais e simbólicas do Brasil”, pontua a carta antes de finalizar se autoproclamando “um chamamento a todos e todas artistas, pensadores e defensores intransigentes da Democracia, da Cultura e da liberdade de expressão para que possamos estar, mais uma vez na História, juntos”.

Alvim, empossado diretor do Centro de Artes Cênicas da Funarte em junho pelo Ministro da Cidadania, Osmar Terra, foi duramente criticado por publicar em sua rede social, em junho, um chamado para “artistas conservadores” criarem uma “máquina de guerra cultural”. Segundo o diretor, o objetivo era formar um banco de dados de profissionais que estivessem alinhados com “os valores conservadores no campo da arte” e formar um novo projeto.

Procurada pela reportagem, a FUNARTE não se pronunciou até o fechamento desta reportagem. Leia abaixo, na íntegra, a carta divulgada pelo grupo A Motosserra Perfumada na tarde de ontem, 27 de agosto de 2019:

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ROBERTO ALVIM CENSURA PEÇA TEATRAL EM SÃO PAULO COM BASE EM SUA SINOPSE

Esta é uma CARTA pela livre expressão do pensamento e do fazer teatral no Brasil. Um ALERTA a todos e todas artistas deste país, pois está aberto um precedente gravíssimo, que um dia o Brasil já conheceu muito bem, o precedente da CENSURA, e que agora tem sido chamado de “FILTRO”.

Durante a Ditatura (1964-1985), o Estado brasileiro financiava o trabalho de censores responsáveis por analisar, deferir ou indeferir, parcial ou integralmente, a execução ou circulação de shows, peças de teatro, textos jornalísticos, canções e obras de arte em geral. No teatro daqueles anos, o censor era aquele profissional que lia os textos para emitir seus pareceres ou riscar trechos que, segundo sua análise, atentavam contra a moralidade, propagandeavam ideais revolucionários ou denunciavam a Ditadura. Não raro, o censor sentava à plateia, ao lado do diretor e do dramaturgo, para assistir aos ensaios, tomar notas, impor cortes, edições, etc.

Não foi o que aconteceu conosco, em agosto de 2019. O diretor do Centro de Artes Cênicas da FUNARTE (Ceacen), Roberto Alvim, censurou sumariamente a realização da temporada de estreia da nossa peça RES PUBLICA 2023, em outubro, no Complexo Cultural da FUNARTE, em São Paulo, tomando por base – pasmem! – apenas a sinopse do texto. Ele não leu a peça. Ele nunca viu o espetáculo, que ainda nem existe. Mesmo assim, sua assessoria afirmou, no e-mail que enviou à Coordenação local da FUNARTE, no dia 18 de agosto, que a peça RES PUBLICA 2023 não reúne “qualidade artística” para ocupar uma das salas do Complexo.

Ora, desde 2016, a FUNARTE tem recebido, conforme seu regimento interno, grupos teatrais de diversas regiões do país sem que a tal “qualidade artística” seja algo definitivo e nunca, ao longo destes anos, o Ceacen se negou a assinar o contrato de cessão de uso do espaço a qualquer grupo, tendo sempre respeitado a lista de espera e o quebra-cabeça dos funcionários locais que procuram, na medida do possível, contemplar a todos. Isso foi o que tentou argumentar para Roberto Alvim a coordenadora do Complexo, Maria Ester Monteiro, o que provocou a exoneração da funcionária, conforme relatou matéria publicada no jornal O Globo, no último sábado, 24 de agosto.

Apesar da matéria velar o nome do grupo e do espetáculo envolvido na polêmica, ao ler nossa sinopse praticamente copiada no jornal, não tivemos dúvida de que se tratava de RES PUBLICA 2023, e de que estávamos, àquela altura, sofrendo um escandaloso processo de censura; algo que  vinha “de cima”, de uma decisão autocrática e sem qualquer fundamento, a não ser político.

Precisávamos, no entanto, aguardar até a segunda-feira, dia 26 de agosto, para conversar com a Coordenadora interina da FUNARTE, Sharine Melo e o administrador, Ricardo Dias, que, visivelmente constrangidos, nos comunicaram que a temporada do espetáculo estava, de fato, por ordem do Centro de Artes Cênicas, cancelada.

A MOTOSSERRA PERFUMADA é um grupo de teatro com seis anos de pesquisa cênica na Cidade de São Paulo. Em 2016, após a última temporada do nosso primeiro espetáculo, “Aquilo que me arrancaram foi a única coisa que me restou” (2015), mergulhamos na criação de um novo trabalho, quando formulamos a hipótese distópica de um Brasil Tropical Fascista em 2023. Corria à época, em Brasília, o processo de impeachment da presidenta Dilma. Da hipótese de um futuro terrível para nós, artistas, e da própria vida naquele bairro, historicamente configurado como reduto de gays, travestis, prostitutas, artistas, imigrantes e adictos, chegamos, no final daquele ano de 2016, ao texto RES PUBLICA 2023. RES PUBLICA 2023 seria, em 2017 e 2018, eleito o 4º melhor texto inscrito na Mostra de Dramaturgia em Pequenos Formatos do Centro Cultural São Paulo (CCSP), obtendo por dois anos consecutivos a primeira suplência num edital que conta, a cada ano, com mais de 250 inscrições. Em 2019, cientes da urgência de um texto que, para o riso de uns e o assombro de outros, a história parecia imitar, começamos a levantar a peça “na raça”, como se diz.

É evidente que não há nenhum tipo de critério de “qualidade artística” envolvido no veto a nossa temporada. Trata-se, claro, de um “filtro” que o Centro de Artes Cênicas impôs, drasticamente, a Regional da FUNARTE em São Paulo. Fomos os primeiros a serem “filtrados”. Outros, talvez, estejam sendo, nesse exato momento, “filtrados” num gabinete em Brasília, segundo a profilática visão de Roberto Alvim sobre o que é arte e o que não é arte. Sua defesa vigorosa, sua “Máquina de Guerra” por um objeto de arte autônomo, livre da seiva má das ideologias políticas, embora sempre tenha nos soado greenberguiano demais, modernista demais, é respeitável. O que não é respeitável é tirar disso a conclusão de que apenas a Esquerda “conspurca”, com suas pautas identitárias, a autonomia do objeto de arte – particularmente, de textos e espetáculos teatrais, e que a Direita, somente a Direita, teria o dom de preservar certo “espírito” de liberdade que caracteriza, para Alvim, a “grande arte”. O que não é respeitável é empreender uma política higienista na arte, em prol de um “Renascimento” que não abriga a diversidade de artistas e obras, mais ou menos engajadas, mais ou menos “abertas”, que caracteriza a cultura brasileira hoje. Leni Riefenstahl, a cineasta queridinha de Hitler e Goebbels, emprestava às suas “ficções alpinas” o mesmo ar sublime e imaterial oposto a tal “arte degenerada” condenada pelo Nazismo, quando o que exibia ao grande público, na verdade, eram corpos arianos musculosos, brancos e indefectíveis, além de ternas crianças saudando a passagem do Führer na multidão. E de pensar no quanto Alvim é um diretor pródigo, autor de obras relevantes para o teatro brasileiro do século XXI… torna-se agora um “goebbelsinho” do Bolsonaro.

Com esse gesto de censura – que, a rigor, nem lhe caberia, afinal, sua função no Governo é administrativa e não curatorial, cabendo-lhe no máximo nomear curadores, não curar espetáculos – Roberto Alvim mandou avisar que não medirá esforços contra peças que exponham qualquer conteúdo que lhe pareça crítico com relação ao Governo, fazendo prevalecer a patrulha ideológica sobre qualquer critério artístico. No fundo, o novo Diretor do Ceacen da FUNARTE apenas cumpre a surrada agenda do bolsonarismo: criar polêmicas morais e ideológicas, principalmente com artistas, para adiar o conhecimento público da inoperância do seu Governo, da debilidade administrativa e mental do seu Presidente e da farra dos interesses privados sobre as riquezas materiais e simbólicas do Brasil.

E é precisamente por tudo isso que essa carta também se torna um chamamento a todos e todas artistas, pensadores e defensores intransigentes da Democracia, da Cultura e da liberdade de expressão para que possamos estar, mais uma vez na História, juntos.

Quanto à peça, estreará. Não sabemos ainda quando, onde nem como. Mas, estreará!

Viva o Teatro!