A Cobradora | Foto: Guto Muniz
A Cobradora | Foto: Guto Muniz

Nem mesmo a forte chuva mineira impediu o público de lotar o Teatro Wanda Fernandes, dentro do Galpão Cine Horto, para conferir a terceira noite de apresentações do Festival Cenas Curtas, promovido pelo grupo Galpão.

Em sua noite mais cosmopolita, recebendo grupos e artistas de diferentes Estados, o Festival Cenas Curtas amenizou o discurso estritamente político para levantar, de forma contundente, discussões acerca de gênero e classe social.

Quando apresentou as duas cenas iniciais, Menino Amarelo do Buchão, do cearense Francisco Thiago Cavalcanti, e A Cobradora, da paulistana Zózima Trupe, o Festival parecia assumir caráter tão oscilante quanto em sua segunda noite. Contudo, a medida que as duas cenas seguintes, a carioca Imbróglia, e Pietà, do mineiro Coletivo Espelho, o Festival voltou aos trilhos com contundentes discussões moldadas em ritmo frenético tanto da comédia quanto do drama.

A terceira noite também ganhou ares de anarquia com a ocupação performática Ensaio de uma Democracia Cromática Número 1, dentro da programação do Rolê iniciado dentro do próprio Cine, e levado para as proximidades do espaço.

Confira abaixo a crítica das cenas apresentadas na noite de 26 de setembro:

Menino Amarelo do Buchão (Cotação: * *)

Menino Amarelo do Buchão | Foto: Guto Muniz
Menino Amarelo do Buchão | Foto: Guto Muniz

Concebida e escrita por Francisco Thiago Cavalcanti, a cena narra a curta trajetória de Amarelinho, criança miserável da periferia de Fortaleza (CE) que, ao sonhar em ganhar presentes do Papai Noel, desenvolve o gosto por armas e invade uma casa num bairro de classe média alta para roubar o que pudesse. Ao ser pego pela polícia, se depara com a indiferença da mãe e com uma futura nova realidade.

Apesar de visceral, o texto é construído como uma espécie de conto cênico. Thiago Cavalcanti abre mão de qualquer encenação para, sozinho no palco, com apenas uma cadeira e um microfone, contar a história em terceira pessoa. O artifício teria toda a chance de atingir o ápice da crueza proposta não fosse o tom monocórdio com o qual o ator decide contar a passagem, deixando clara a necessidade de uma direção.

Ao tentar desossar Acende o Crepúsculo (a canção feita por Antônio Cícero e Marina Lima, gravada no LP Bem Bom, de Gal Costa, em 1986), Thiago Cavalcanti até tenta uma lufada de ambição cênica, mas soa apenas desconexo do tom plácido com o qual construiu todo o prólogo, sem um clímax que de fato segurasse a encenação e apontasse para um espetáculo mais desenvolvido.

A Cobradora (Cotação: *)

A Cobradora | Foto: Guto Muniz
A Cobradora | Foto: Guto Muniz

A paulistana Zózima Trupe chega ao Festival Cenas Curtas com seu trabalho mais esmaecidos e irregular. Cláudia Barral assina a dramaturgia desta que não faz lembrar nem de longe a autora de espetáculos como o poético Cordel do Amor sem Fim. Ao tentar desconstruir o mito da mulher pecadora, entremeado por Lilith e Eva, Barral constrói dramaturgia frouxa, interpretada de forma histriônica por uma não menos irregular Maria Alencar.

Em cartaz em São Paulo, no Auditório do Sesc Vila Mariana, A Cobradora foi representada por uma de suas cenas menos contundentes, deixando para trás os bons depoimentos colhidos de cobradoras de ônibus em São Paulo, resultando numa cena que pouco acrescenta tanto cenicamente quanto ideológicamente ao Cenas Curtas.

Imbróglia (Cotação: * * * * *)

Imbróglia | Foto: Guto Muniz
Imbróglia | Foto: Guto Muniz

Melhor cena da noite – e uma das melhores do Festival até aqui -, Imbróglia foi a primeira a usar de um fino humor para fazer o que o humor foi criado para fazer. O trio de atrizes critica o machismo, levanta bandeiras feministas e brinca com a sexualidade e com o gênero com texto consistente potencializado pela força circense da obra.

Sob a (boa) direção de Caio Riscado e com dramaturgia burilada pelas atrizes Bel Flaksman, Juliana Brisson (os destaques do elenco) e Laura de Castro, com o diretor (e por hilárias citações a Cher, Ivete Sangalo e Glória Steinen), Imbróglia é espetáculo de crítica potente e linguagem que foge a qualquer pretensão, atingindo o ápice não apenas da comicidade, mas também da fusão entre circo e teatro.

Pietà (Cotação: * * * ½)

Pietà | Foto: Guto Muniz
Pietà | Foto: Guto Muniz

Experimento cênico sobre a figura de cinco jovens negros, Pietà traz à luz temas como a violência policial, o estupro, o preconceito e o racismo estrutural por meio de frases corriqueiras e repetidas à exaustão no processo de autocuidado. Sob a direção de Rikelle Ribeiro, o elenco formado por Bárbara Costa, Felipe Oliveira, Michele Bernardino e Victor Vieira ainda transpira inexperiência, mas constrói bonito relato cênico do racismo no Brasil.

A cena, favorecida pela curta duração, soou friccionada pela boa dramaturgia costurada pelo grupo, e ganhou intensidade imagética a medida que se aproximou do fim anticlimático e cruelmente delicado.

O Festival Cenas Curtas acontece até domingo (29) no Galpão Cine Horto, a partir das 20h (cenas). Os ingressos custam de R$ 10,00 (meia) a R$ 20,00 (inteira). A programação também conta com a exibição do documentário Cenas Curtas 20 Anos: A Festa dos Encontros, de Marcos Coletta e Paula Dante, e com debates realizados um dia após a realização das cenas, e performances em espaços ao redor, com ingressos gratuitos.

A reportagem viajou a convite da produção do Festival