Transe | Foto: Guto Muniz
Transe | Foto: Guto Muniz

Festival que há 20 edições fomenta e dá base ao teatro independente mineiro, o Cenas Curtas chega a seu 19º ano com fôlego e gana de debutante. Seguindo seu histórico de pleno diálogo com a cena contemporânea e política, o Festival promove nesta edição espetáculos que tenham como fio condutor a temática Resistência, em pleno acordo com os movimentos contraculturais que vem tomando a cena underground do teatro nacional.

Promovido pelo trabalho do Grupo Galpão, o primeiro dia do Cenas Curtas contou com seleção de espetáculos de fôlego e força dentro da chamada Mostra Espetáculo, no qual são apresentadas cenas fora da competição, e abrindo a programação de ontem, 24.

O Festival, dentro de sua linguagem marginal, cria, dentro do Teatro Wanda Fernandes, um ambiente de descontração que auxilia tanto na compreensão das cenas – com duração de 15 minutos cada -, quanto na produção de um conceito fora de qualquer norma rígida de um teatro clássico.

As cenas apresentadas dentro da Mostra Espetáculo comprovam a diversidade do teatro independente mineiro frente aos anseios sociais e politizados de grupos de atores e, mesmo, da plateia que lotou o espaço do Galpão Cine Horto – com experiência prolongada pela proposta dos chamados Rolês, performances fora do espaço cênico habitual que expande a proposta das cenas do Festival, que, neste primeiro dia, se comprovou ainda jovem e repleto de anseios.

Confira as críticas da programação do dia 24 de setembro de 2019:

Transe (Cotação: * * *)

Transe | Foto: Guto Muniz
Transe | Foto: Guto Muniz

Cena-espetáculo idealizada pela Maldita Cia. de Investigação Teatral, “Transe” narra é performance que une os signos do teatro documentário com o audiovisual através da história narrada pela presa política Emely Vieira, uma sobrevivente aos anos de chumbo que, ao encontrar seu torturador pela primeira vez após a prisão, o enfrenta.

O grupo funde gêneros com maestria, embora não seja necessariamente uma abordagem inédita, ou mesmo inovadora. Contudo, a beleza plástica do depoimento de Vieira, e certo conceito antropofágico permeado pela performance de Elba Rocha e Rodrigo Antero fazem com que o espetáculo resulte intenso, e cresce justamente pelo desfecho anticlimático, ao som de bonita abordagem de “Sem Fantasia” (Chico Buarque de Hollanda), resultando tão bonito quanto, de fato, previsível.

Quem vai Olhar as Crianças? (Cotação: * * * ½)

Quem Vai Olhar as Crianças | Foto: Guto Muniz
Quem Vai Olhar as Crianças | Foto: Guto Muniz

Com teor cômico pincelado frente a sátira sócio política do espetáculo pensado por Raquel Castro, “Quem vai Olhar as Crianças” cresce justamente por fazer uso de humor fino que, aliado ao deboche cênico, resulta em fina ironia tanto ao mundo dos musicais quanto ao do teatro contemporâneo.

Alicerçada em bom texto, Pacheco ganha ainda ao dividir a cena com Brenda Rezende, Luíza Terrinha, Gabriela Guedes, Hellen Luiza e Sofia Castro sob a direção de Thálita Motta, Thales Ventura e da própria Raquel. Neste embrólio de referências, cabe ainda citações a Marielle Franco e Eva Perón em divertida sátira ao momento-chave do musical “Evita”, de Andrew Lloyd Webber e Tim Rice. 

Rueiros (Cotação: * * *)

Rueiros | Foto: Guto Muniz
Rueiros | Foto: Guto Muniz

Com dramaturgia friccionada, a produção do Grupo dos Dez em parceria com o Coletivo Fio em Cena busca analisar as pressões do cotidiano e o processo de invisibilidade proposto por uma grande metrópole. Ainda que conte com elenco irregular, a abordagem soa interessante dentro da proposta de fricção dos coletivos.

Com desfecho menos surpreendente do que faz supor sua construção, a cena traz elementos do teatro do absurdo que servem bem, principalmente ao espaço do Teatro Wanda Fernandes. Sob boa direção de Rodrigo Jerônimo e direção musical coesa – apesar de pouco inventiva – de Bia Nogueira, o espetáculo resulta como boa experiência, aquém do que se propõe, mas sem comprometer o resultado como um todo.

Um Preto (Cotação * * * *)

Um preto | Foto: Guto Muniz
Um preto | Foto: Guto Muniz

Cena já clássica da Companhia Negra de Teatro, o espetáculo-poema encerrou a noite como a expressão mais potente do tema proposto pelo festival. Com excelente trabalho cênico, a Companhia analisou de forma intensa a presença da figura negra na sociedade, sem jamais cair num discurso simplista ou repetitivo.

O encantamento principal se dá pelo excelente trabalho de corpo com o qual os atores fundem referências poéticas e cênicas. Com potência e sem abordagens simplórias, Um Preto encerrou o primeiro dia do festival deixando a ideia de que, a despeito da temática ligada a contemporaneidade, a resistência sempre esteve presente na sobrevivência da figura do negro brasileiro.

O Festival Cenas Curtas acontece até domingo (29) no Galpão Cine Horto, a partir das 20h (cenas). Os ingressos custam de R$ 10,00 (meia) a R$ 20,00 (inteira). A programação também conta com a exibição do documentário Cenas Curtas 20 Anos: A Festa dos Encontros, de Marcos Coletta e Paula Dante, e com debates realizados um dia após a realização das cenas, e performances em espaços ao redor, com ingressos gratuitos.

A reportagem viajou a convite da produção do Festival Cenas Curtas