Rua Azusa | Foto: Wendy Vatanabe Cruz
Rua Azusa | Foto: Wendy Vatanabe Cruz

Publicada hoje, a ótima matéria assinada por Anna Virginia Balloussier na Folha de S. Paulo, Companhia teatral cristã defendida por aliado de Bolsonaro vê preconceito, traz à luz uma entrevista com Caíque Oliveira, diretor e principal nome da Cia. Jeová Nissi, companhia teatral que ganhou verdadeiro destaque no cenário nacional do teatro musical após a encenação de Rua Azusa, musical que rendeu ao grupo um Prêmio Bibi Ferreira, na última edição do prêmio em São Paulo, em setembro deste ano.

Na matéria, Balloussier aborda a polêmica declaração do Diretor do Centro de Artes Cênicas da Funarte, Roberto Alvim, de que daria a companhia a possibilidade de ocupar o Teatro Glauce Rocha, no Centro do Rio de Janeiro, com uma programação voltada ao público evangélico. A possibilidade de que o teatro, aparentemente desativado, sirva para a produção de peças da Companhia deixou parte da classe artística alvoroçada.

Acusações de doutrinação religiosa começaram a pipocar em grupos de whatsapp e um protesto na frente do próprio teatro jogou luz diferente da consagração que o grupo vem recebendo por espetáculo capaz de bater de frente a produções como Annie e Billy Elliot, alguns dos concorrentes que bateu na premiação idealizada pelo produtor Marllos Silva.

Com uma história cênica voltada basicamente a encenação deste tipo de espetáculo, a Cia Jeová Nissi veio se destacando no cenário teatral pela composição de suas obras, com qualidade superior ao que geralmente se é creditado ao teatro ligado a temas religiosos. Nasceu então um grupo de fãs e seguidores que deram prestígio e capital a Companhia, dando subsídio para que arrendasse pelo período de uma década o Teatro Brigadeiro, em São Paulo, agora rebatizado de Teatro Nissi.

Contudo, a despeito do que pensa o líder do grupo, o problema não é necessariamente – ou apenas – preconceito para com a fé e a religião dos espetáculos produzidos pela Companhia, mas sim pelo caráter impositivo que uma série de medidas tomadas pelo governo do presidente Jair Messias Bolsonaro (PSL), ligadas diretamente ao público do mercado evangélico, responsável por elegê-lo.

Se Roberto Alvim faz questão de ligar o trabalho do grupo à religião e ao público específico, é compreensível que o setor mais progressista do teatro nacional não apenas se assuste, mas também articule uma tentativa de impedir que o teatro ligado a um órgão público seja destinado ao que pode vir a ser uma curadoria de caráter doutrinadora.

É inconstitucional o uso da máquina pública para este tipo de finalidade, a menos que, sob a gestão da Cia Nissi, o Teatro Glauce Rocha passe a receber espetáculos de diferentes religiões, como, por exemplo, o espiritismo – forte corrente dentro do teatro nacional, a ponto de gerar um Festival de Teatro Espírita, a ser realizado em novembro, no Teatro Fernando Torres, no Tatuapé, zona leste da capital.

Caso o contrário, se trata de um órgão público utilizando da máquina para divulgar uma fé específica e, diferente do que, calhordamente, Roberto Alvim faz tentar soar, está distante de ser uma revitalização de um teatro público para fins puramente artísticos. Pode ser que, como acredita Caíque Oliveira, haja certa dose de preconceito para com o trabalho de sua Companhia, entretanto esta mesma dose de preconceito não se manifestou frente a estabilização do grupo em um teatro próprio, em São Paulo – um espaço sabidamente subaproveitado em gestão passada – com seus próprio subsídios.

Ao acenar para uma possível compactuação com a política de censura e caça promovida por Roberto Alvim, que encontrou na Companhia o bode expiatório perfeito para dar continuidade a seu incansável plano de relevância virtual, Cia. Nissi, até com certa ingenuidade, se esquece de que, a despeito do preconceito, está lidando com questões que ferem temas básico da Constituição.