Ivan Parente | Foto: Divulgacao
Ivan Parente | Foto: Divulgacao

“Eu odeio teatro!”, ironicamente foi com esta contraditória frase que ator, cantor e diretor paulista Ivan Parente viu sua carreira mudar apś protagonizar A Madrinha Embriagada (2013), um dos primeiros musicais da série de espetáculos do gênero apresentado pelo Teatro do Sesi, na Avenida Paulista.

Fazendo par com espetáculos como Lampião e Lancelote (2012), O Homem de La Mancha (2014) e As Cangaceiras, Guerreiras do Sertão (2019), títulos que promoveram a popularização do teatro musical na capital paulistana em paralelo a títulos como O Rei Leão (2013), Wicked (2016) e O Fantasma da Ópera (2018), apenas para citar alguns dos maiores blockbusters da capital nos últimos anos.

Entretanto foi com A Madrinha Embriagada, sob a direção de Miguel Falabella, que o Sesi conheceu a total e completa popularização do gênero, com filas intermináveis de quarta-feira a domingo formadas por possíveis sortudos que tentavam um lugar remanescente entre as 456 poltronas do teatro.

Na obra, uma adaptação de The Drowsy Chaperone (1998), uma personagem conhecida como O Homem da Poltrona faz do público confidente de sua relação dúbias de amor e ódio com o teatro enquanto revisita o espetáculo mais importante de sua infância através de um LP recheado a saudosismo.

Ivan Parente como O Homem da Poltrona em A Madrinha Embriagada | Foto: Caio Gallucci

“Foi minha retomada na carreira de musicais em São Paulo”, conta o ator que, antes, havia feito uma ponta na segunda montagem brasileira do clássico Hello, Dolly! (2012), protagonizado por Marília Pêra (1943 – 2015) após ter construído sólida carreira no teatro carioca como um dos principais componentes da companhia teatral do diretor e produtor argentino (radicado há 30 anos no Brasil) Billy Bond.

“O Miguel [Falabella] ficava puto, porque ele queria que eu voltasse para São Paulo, queria que eu fizesse esse teatro musical, e ele foi muito importante no meu retorno”, diz o artista que se descobriu ator pelas mãos do diretor e multiartista carioca. “Ele foi ver a primeira montagem de Os Miseráveis (2001), e queria todo o elenco nas audições do musical que ele ia montar, o Godspell (2002). Foi pelas mãos do Miguel que eu descobri que não era apenas um cantor, mas também um ator que se comunicava com a plateia, conseguia fazer rir e chorar, foi uma experiência incrível”, relembra.

O Homem da Poltrona em A Madrinha Embriagada foi, então, apenas a confirmação da vocação de Ivan Parente como um dos melhores atores de sua geração que, indicado ao Prêmio Bibi Ferreira seguidas vezes, conquistou espaço e prestígio no meio, o que o levou a outras áreas do ofício de ator.

Após A Madrinha Embriagada, Parente emendou papéis marcantes em espetáculos como O Homem de La Mancha, Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos (2016) e a consagração teatral na pele do trambiqueiro Thénardier na segunda versão de Os Miseráveis, em 2017, que lhe rendeu seu primeiro Bibi Ferreira como ator coadjuvante, numa performance que levou a crítica a raros elogios unânimes.

Ivan Parente como Thénardier em Les Misérables |Foto: Divulgação

“Fico sempre muito lisonjeado, porque é um trabalho de muito tempo. Desde 1996 eu não lembro de algum ano não ter estado em cartaz. Faz 23 anos que eu estou em cena, então esse reconhecimento é ótimo”, diz.

Sem jamais se considerar apenas um ator, Parente gosta de se ver como um artista com múltiplas possibilidades. Duas delas ganharam mais visibilidade nos últimos anos. A faceta dublador, por exemplo, o levou a personagens icônicas, como o mordomo francês transformado em candelabro, Lumiére, na live-action de A Bela e a Fera (2017), e o icônico suricato Timão, na versão live-action de O Rei Leão (2019).

“Eu não sou um ator de teatro musical, eu sou um artista. Olha a Beyoncé, o Ewan McGregor, eles são artistas, eles podem dublar, então por que eu não posso?”, questiona o ator, que encontrou também certa resistência da própria classe quando assumiu o papel do bedel Lindomar, na novela As Aventuras de Poliana, exibida pelo SBT desde 2018 e que deve ganhar prorrogação da temporada por mais um ano.

“Muitas pessoas me torceram o nariz quando souberam que eu faria uma novela, sabe? Me perguntavam se eu iria deixar de fazer musicais. Claro que não, por que uma coisa impede a outra?”. Contudo, o ator enxerga sim certo preconceito de parcela da classe teatral para com atores do teatro musical.

“O Brasil tem isso, né? Os diretores de teatro acham que nós, atores de teatro musical, não somos bons atores. Não sei se é preconceito, se é uma defesa, mas tem uma separação. Eu penso: pô, nunca vou fazer uma peça com o Antônio Fagundes, por exemplo. Mas temos bons atores em teatro musical e eu acredito que, se houvesse teste, se soubéssemos… com certeza mostraríamos que estamos muito além do nicho do teatro musical. Claro que também é parte de um preconceito meu nunca ter ido atrás de um grupo Tapa, de uma Velha Companhia, que eu admiro imensamente, por exemplo”.

Ivan Parente como o bedel Lindomar em As Aventuras de Poliana | Foto: Divulgação

A companhia paulistana formada há 16 anos por Kiko Marques, Alejandra Sampaio e Virgínia Buckowski, inclusive, está entre as influências de Parente, que diz desejar trabalhar ainda com grupos como A Barca dos Corações Partidos e com a diretora Duda Maia, responsáveis pela realização daqueles que Ivan considera os espetáculos mais impactantes de sua vida: o biográfico Elza, O Musical, sobre a cantora do milênio Elza Soares, montado em 2018, e Suassuna – Auto do Reino do Sol, de 2017.

“Eu saí de lá sem chão. Muito impactado. Eu estarei velhinho e correndo atrás da Duda Maia para que ela me dirigia em alguma coisa. A Barca a mesma coisa, tenho vontade de pensar em alguma coisa com eles, sair tocando violão, pirar, sabe?”.

Todas estas referências fizeram parte de outro passo importante dado pelo artista, que adiciona um novo epíteto aos que já carrega, como cantor (fez parte do grupo O Teatro Mágico desde sua fundação, em 2003), compositor (lançou um disco solo e autoral em 2009, Isto não é uma Declaração de Amor), ator, instrumentista, diretor musical e, agora, diretor teatral.

A despeito de já ter desenvolvido trabalhos de direção dentro da companhia de Billy Bond, foi apenas em 2019 que decidiu assumir (e assinar) a direção geral de um espetáculo. Em O Mágico Di Ó, espetáculo de um dos autores mais incensados da última década, Vitor Rocha, Parente divide com Daniela Stirbulov os louros do espetáculo que funde a história de um grupo de retirantes nordestinos ao clássico romance O Mágico de Oz, de L. Frank Baum.

O Mágico Di Ó | Foto: Divulgação

“Quando a Luiza Porto e o Vitor Rocha vieram falar comigo, eles achavam que tinha que ser eu porque eu havia dirigido a Luiza numa montagem do Billy Bond para O Mágico de Oz, e ela queria ter um reencontro com essa Dorothy. Ela quis produzir e já sabia quem dirigiria, quem estaria na ficha técnica no palco, tudo”, conta o ator, que assumiu vê no espetáculo um dos projetos mais emocionantes de sua carreira.

“Eu chorava todos os dias, e olhava para a Daniela e ela também estava aos prantos. É um espetáculo que mexe muito com a gente. Nós fizemos o nosso, produzimos o nosso, a gente investiu cada um o seu tempo, sua criatividade. Passamos dois meses no processo criativo mesmo, de pegar passagem por passagem e decidir o que aconteceria com o texto, uma coisa muito nova pra mim, e entramos sem grana, montamos e as pessoas saiam de lá incrivelmente tocadas”.

Foi o que aconteceu com Pedro Vasconcelos, renomado diretor carioca que assinou filmes como O Concurso (2013) e Dona Flor e seus Dois Maridos (2017), com Carol Castro e Marcelo Farias. Na TV, assinou obras como Amazônia – De Galvez a Chico Mendes (2007), A Favorita (2008), Além do Tempo (2015) e A Força do Querer (2017), entre outros, na Rede Globo.

“Sinto que o que o Pedro Vasconcelos viu ali foi esse pedacinho de cada um de nós. Viu a direção minha e da Daniela, o trabalho da Luiza, essas personagens completamente desconstruídas no nordeste brasileiro, falando do nosso Brasil e da nossa arte, o visagismo, o figurino. Quando as pessoas virem no cinema, eles verão esse trabalho, porque o Pedro tá ali produzindo a nossa visão, as minhas marcações, as músicas do Marco França, é um filme de todos nós”, declara Parente que acredita estar faltando esse reconhecimento.

“As pessoas não estão sabendo, mas há um monte de pessoas envolvidas nesse projeto desde o embrião, um monte de trabalhos, desde o criativo até a mãe da Luiza Porto dobrando os programas do espetáculo. Essas pessoas precisam ser lembradas”, diz o ator que vê no projeto um sinal de novas possibilidades artísticas para o futuro após as mudanças drásticas sofridas pela Lei Rouanet no governo de Jair Messias Bolsonaro (PSL).

“Acho que não haverá mais o tanto dinheiro investido como antes, mas é possível fazer. O Mágico Di Ó fizemos com pouco mais de cinco mil reais, e deu esse resultado todo. Eu acredito que somos um povo muito criativo e somos capazes de fazer bons espetáculos com pouco dinheiro”, diz Parente que, contudo, enxerga um grande problema a ser combatido.

“Nós criamos um monstro, que é o público que quer ver coisas muito grandes, quer ver o show, a pirotecnia, as luzes, cenários. Eu acredito que temos que investir em mais roteiros. Conhecemos muitos espetáculos brasileiros que querem basicamente o show, as luzes, o cenário e às vezes a história não é o mais importante. Eu acredito que tenhamos que ter som, luz etc., mas precisamos, acima de tudo, de bons atores em cena e uma boa história”.

Ivan Parente | Foto: Divulgação

E continua: “Eu acredito que se realmente for o caso de o governo tirar completamente as verbas, os incentivos fiscais, eu creio que o artista brasileiro será capaz de tirar boas histórias de pouco dinheiro. Mas eu ficaria triste de saber que isso não é prioridade, que a cultura não é prioridade, isso me chateia. Me chateia essa história de mamar na teta do governo. Olha o tanto de espetáculos que apresentamos, o tanto de público que foi ao teatro, o tanto de famílias alimentadas através do teatro musical. E você aguça pessoas a verem outras histórias, ler livros, ir em exposições, sabe?”

“Muitos acham que é supérfluo, mas nós alimentamos a alma. Acho que não temos que nos pautar nas verbas do governo, podemos ser criativos também. Se alguém se beneficiou ilicitamente dessas verbas, me sinto envergonhado. Eu sempre fiz trabalhos sérios como artista, e mereci receber pelo o que fiz. Eu trabalho dentro de casa, tenho que decorar o texto em casa para ir trabalhar. O artista trabalha dentro e fora do trabalho. Um médico não opera em casa, ele vai operar no hospital, em casa ele tá relaxando com a nossa ajuda, nós proporcionamos isso”, afirma o ator que acredita que a importância do teatro musical esteja muito além do simples entretenimento.


“O teatro musical renovou o público do teatro. Muita gente vai ao teatro hoje porque, antes, saiu de casa para ver musical. Nós tivemos esse papel na renovação e sobrevivência do teatro no Brasil”, finaliza Ivan Parente que, recentemente, esteve em cartaz no elenco do musical Madagascar – Uma Aventura Musical, mas precisou deixar a produção, e agora segue em andamento com a possibilidade de um show solo, um espetáculo autoral e a renovação de seu contrato com o SBT para a nova temporada da novela As Aventuras de Poliana. Quem viver…