O Evangelho Segundo Jesus Cristo Rainha do Céu | Foto: Divulgação
O Evangelho Segundo Jesus Cristo Rainha do Céu | Foto: Divulgação

A década de 10 se encerra deixando também o legado do início de uma revolução de costumes, que busca promover pautas como a igualdade social entre homens e mulheres, a tolerância, o fim da homofobia, o combate ao machismo e ao racismo, entre outros, em cena.

Neste cenário, espetáculos estrearam e outros receberam duras críticas ao longo da década. Entre os mais criticados estão A Mulher do Trem (2015), do grupo Os Fofos Encenam, que, fazendo uso da blackface (técnica de visagismo e encenação consideradas racistas por objetificar a figura da pessoa negra e impedir que atores negros interpretem o papel) receberam críticas de movimentos negros e decidiram por não apresentar o espetáculo no Itaú Cultural, na Av. Paulista.

Caso parecido ocorreu recentemente, quando um grupo defensor dos direitos LGBTQI+ se opôs a apresentação da peça Seios durante o festival Satyrianas, em São Paulo, neste ano. Na obra, o ator Dionísio Neto daria vida a um homem em processo de transição. As críticas questionavam o motivo de uma personagem trans não ser interpretada por uma pessoa trans. Em meio a polêmica, Carrasco decidiu retirar a peça de circulação.

Mais corajoso foi Luís Lobianco que, em 2017, estreou o solo Gisberta, sobre uma mulher trans assassinada em Portugal por um grupo de 14 menores de idade pertencentes a uma congregação católica, que jogaram seu corpo num poço. Tomando como base a canção Balada de Gisberta, de Pedro Abrunhosa, lançada com sucesso no Brasil por Maria Bethânia, Lobianco dava vida à personagem trans e recebeu uma série de críticas do coletivo mineiro Transvest, que gerou um manifesto assinado por uma série de profissionais trans.

Lobianco escolheu então abrir o palco após a apresentação do espetáculo para uma série de debates sobre representatividade, lugar de fala e profissionalização das pessoas trans. O espetáculo seguiu em diversas apresentações ao redor do Brasil e pela Europa carregando o manifesto, que também contava com a assinatura da atriz Renata Carvalho, que gerou polêmica graças a encenação de O Evangelho Segundo Jesus Cristo, Rainha do Céu.

No monólogo, a figura de Cristo era apresentada como uma travesti, o que causou furor em setores da política, da sociedade e, claro, das igrejas. Carvalho foi censurada em festivais e ameaçada em cidades por onde chegava. O que manteve o espetáculo em constantes temporadas foi justamente o apoio do público, que através de financiamentos coletivos e protestos, garantiram as apresentações.

A década se encerra com a discussão acerca da representatividade cada vez mais aberta e mais acirrada. Diretores, encenadores e jornalistas mais veteranos se recusam a aceitar o conceito de lugar de fala, enquanto nomes mais jovens já enxergam a proposta como prática sine qua non para suas encenações de dramaturgias.

Silvério Pereira, com seu espetáculo BR Trans faz o serviço de educar o público, enquanto, sem muitos alardes, Tadeu Aguiar promove a inclusão com espetáculos como Love Story e A Cor Púrpura, musicais encenados apenas com atores negros, ponto de ineditismo no teatro musical que, até o momento, é o mercado que menos se importa com a discussão, ainda que tenha encenações de força, como o recente Gota D’Água [Preta].

Fóruns e comunidades criadas para juntar fãs de musicais fervem em conflitos sobre o tema, como por exemplo o fato de a segunda montagem brasileira do musical Rent ter apenas atores brancos, mesmo em personagens originalmente negras. Ou o fato de futuros espetáculo como A Casa das Sete Mulheres não pensarem na inclusão de atores negros em seu elenco principal.

Enquanto a discussão segue, espetáculos vão sendo criados para levar a discussão a outros níveis. Mesmo que isso inclua ataques infundados, como os que o diretor Aderbal Freire Filho sofreu quando da encenação de seu Cabaré Transpoético, com Lucélia Santos e Beatriz Azevedo, no qual discutiam a brutalidade social através da poesia, no conceito de transcendê-la.