Fóssil | Foto: Ronaldo Gutierrez
Fóssil | Foto: Ronaldo Gutierrez

Em meados de 2015, a atriz Natalia Gonsales iniciou uma série de pesquisas sobre a condição de pessoas à margem da sociedade, vivendo sob o pano da invisibilidade social. Gonsales se deparou então com a figura do povo cigano, marginalizado e pouco lembrado, principalmente no Brasil.

Em meio às pesquisas, nasceu Carmen, espetáculo de Luis Farina encenado em 2017 sob a direção de Nelson Baskerville, adaptando o clássico romance do escritor francês Prosper Mérimée editado em 1845. Dividindo a cena com Flávio Tolezani e Vitor Vieira, Gonsales reinventou a história da cigana que virou uma famosa ópera do também francês Georges Bizet.

O processo fez a atriz levantar questionamentos sobre a condição da mulher e a forma que a figura feminina também é relegada à marginalização social. “Eu comecei a pesquisar sobre as mulheres que lutaram na Segunda Guerra Mundial, as russas principalmente, e comecei a ler depoimentos horrorosos, sabe? Li muitas coisas muitas referências, e queria falar daquilo”, relembra a atriz que começou a pensar no projeto em meados de 2016, quando ainda preparava as primeiras leituras de Carmen.

A luz para a figura das mulheres curdas veio através de uma dica da bailarina Fernanda Bueno, originalmente ligada ao projeto. “Ela me falou sobre as curdas, que são as mulheres soldado de hoje, e isso me bateu muito forte. Não tinha porque falarmos da Segunda Guerra se podíamos falar de hoje, do que está acontecendo agora”, conceitua Gonsales, que começou a se envolver cada vez mais com o tema e buscar parceiros que topassem desenvolvê-lo em conjunto.

“Muitas pessoas passaram ao longo desses anos de processo até eu chegar na Sandra, na Marina e no Nelson”, relembra, se referindo aos parceiros Sandra Corveloni, que assina a direção do espetáculo, Marina Corazza, autora do texto, e Nelson Baskerville, com quem divide a cena.

“Eu me encontrei com a Marina Corazza e deu uma liga muito boa, encaixou muito bem, e nesses três anos de processo ela nunca se fechou. Sempre que ela me encontrava, queria me ouvir, queria ouvir o que pulsava dentro de mim, o porquê de fazer aquilo, como eu me colocava como mulher nesse mundo específico. Ela escutou muito, e por isso foi um processo longo, e é isso que é o teatro, um processo de escuta”, diz.

Fóssil | Foto: Haroldo Miklos

Nasceu então Fóssil, espetáculo que estreia hoje, 09, no Espaço Cênico do Sesc Pompéia, na zona oeste da capital. O espetáculo narra o encontro de uma jovem cineasta com um poderoso diretor de uma empresa de gasoduto, que manteve uma relação delicada com sua mãe. A relação das personagens vai se desenvolvendo e criando novas camadas a partir de um encontro pensado para solicitar patrocínio para a realização de um filme sobre as mulheres soldado do Curdistão.

O desenvolvimento do processo foi o que chamou a atenção da diretora Sandra Corveloni que, em 2018, havia assistido no Festival de Cinema de Cannes As Filhas do Sol, filme da diretora francesa Eva Husson sobre um grupo de mulheres envolvidas com o front da guerra no Curdistão, região que compreende partes da Turquia, Irã, Síria e Iraque, no Oriente Médio.

O interesse do Corveloni pelo tema bastou para que Gonsales a convidasse para assumir a direção do espetáculo. “A Natália já tinha me contado sobre a pesquisa dela que tinha virado um projeto, e depois que ela me convidou fui me aprofundar e tudo se encaixou”, lembra a diretora. 

“Do jeito que a Marina [Corazza] escreveu, e da forma que elas conduziram a pesquisa, a gente abre um leque muito amplo, não fala só das mulheres curdas, mas do conflito da indústria com a arte, que é o papel dessa personagem do Nelson, que a conhece desde criança, que teve uma relação com a mãe dela, enfim, a peça apresenta outras camadas, traçando um contraste com essas pessoas que acreditam que nada muda, se acomodaram, e essas outras que acreditam que precisamos ir em frente”, conceitua a diretora, que vê na peça também uma forma de divulgar as ideias e o trabalho dessas mulheres que se tornam personagens no espetáculo.

“Elas têm esse mundo da igualdade de gêneros, da luta entre o espaço e o território para você plntas, viver, criar os seus filhos, passar pela vida de uma forma digna, sabe? No meio da guerra estão lá, juntos, homens e mulheres tentando implantar um sistema político que é mais importante que estabelecer fronteiras, que é um modo de viver mais saudável, mais tranquilo, garantindo algum direito”, diz Corveloni, que enxerga o movimento com um ar de esperança.

“O Confederalismo, que é a política que eles tentam implantar, é quase um oásis de liberdade. E aí você pensa, capitalismo está dando no que está dando, destruição, desigualdade, o [Donald] Trump sofrendo um processo de impeachment e discursando dizendo que eles têm as maiores armas, e que não vão parar de construí-las para proteger o território deles e conquistar outros. Você sabe que isso uma hora vai implodir. Pensar nessa forma democrática me faz ter esperanças nessa semente que vem sendo plantada há algum tempo”.

Fóssil | Foto: Haroldo Miklos

Gonsales enfatiza: “Lá no Oriente Médio, onde está o Estado Islâmico, está também o confederalismo democrático. Daí começamos a entender a luta e pensar: como nesse lugar onde o machismo impera, elas existem? A luta mais sangrenta que elas travaram foi pelos seus direitos. Muitas mulheres, muitas mesmo, foram mortas pelos maridos e por outros homens por querer defender seus direitos”, conta a atriz que, neste espetáculo, quis voltar a trabalhar com Nelson Baskerville, com quem construiu profícua parceria em 2017.

“A Natália sempre me falou sobre esse projeto das curdas, e eu não entendia o que ela queria com as curdas, o que ela queria encarar, e foi isso que me fisgou na peça, porque a ligação que eu tinha com os curdos é basicamente a mesma que todo mundo no Brasil, de preconceito. A gente sabe, mas não sabe, é uma coisa genérica, e a gente é muito compelido por mídia, pelos Estados Unidos, por interesses financeiros e capitais a entender todos lá são terroristas. É como esse preconceito de que todo mundo que mora na favela é bandido”, diz o diretor e ator cada vez mais bissexto.

“Eu tenho sempre que me manter atuando para continuar encenando, porque eu entendo cada vez mais o processo de ator, e é a minha formação. E eu recebo muitas propostas para trabalhar como ator, daí ou não posso, ou leio o texto e não gosto. E esse eu gostei, porque é uma coisa que você nunca imaginou. E a forma como a autora coloca eu acho muito bacana, a mistura das curdas com a Ditadura Militar do Brasil, e você pensa: qual a relevância? Daí vem uma mãe que lutou contra a Ditadura com pessoas que nos tempos de hoje são consideradas terroristas e ponto, não tem discussão”, conceitua Baskerville que também tinha curiosidade de trabalhar com a amiga Sandra Corveloni.

“A gente se encontrava e ela sempre me perguntava: quando você vai me dirigir? E aí as coisas se inverteram. Ela é uma diretora fantástica, nada autoritária e com uma escuta maravilhosa, como todo esse projeto. A peça foi construída também em sala de ensaio com processos de escuta, porque a cada dia a gente foi descobrindo coisas novas, é um fenômeno de nós três em sala de ensaio”, diz o ator

Apesar da temática, a princípio, difícil e pouco reconhecível com o público em geral, o grupo acredita que a peça tem um poder de comunicação que dialoga com a sociedade contemporânea. “Somos todas resistentes, e a construção da Marina te faz pensar em você mesma”, explica Corveloni. “Essa relação da empresa com a arte, essa mãe que foi assediada, essas mulheres sequestrada, atualiza muito. É uma peça com um tom atemporal porque nós temos essas lembranças, quando a personagem da Natália conta sobre a mãe, a gente automaticamente é transportado para lá”.

“Os curdos acreditam muito nas suas mulheres. E é tudo muito completo, porque ao mesmo tempo que elas se colocam nesse lugar de resistência, elas estão lutando, estão no front porque acreditam nas gerações, elas sabem que as próximas gerações que importam. Elas acreditam na educação. Na escola implantada no Confederalismo Democrático não existe professor. Elas acreditam que todo mundo é professor e estudante”, garante Gonsales que nutre o desejo de visitar o front das mulheres curdas.

“Eu não sei por que ir para lá. Não sei. Mas tenho essa necessidade de ver essas mulheres que acreditam, principalmente, na troca. Lá eles sabem que a mulher está num lugar mais complicado do que o operário oprimido, porque a mulher não é uma condição social, é um gênero. Lá eles estudam os ensinamentos das mulheres, porque sabem que elas pensam na frente, nas próximas gerações”, explica a atriz que, tal qual a diretora, acredita que a peça vai comunicar sobretudo pela emoção.

“Eu não sou do teatro hermético, acredito que a peça precise comunicar, e ela comunica. Se as pessoas forem procurar ou pensarem sobre esse Confederalismo Democrático, já valeu à pena. E eu acho que vai ser bem recebida. Tá difícil de passar, a casca tá grossa, sabe? A gente quer, com esse espetáculo furar esse bloqueio, chegar no sentimento. Alguma coisa tem que pingar”, finaliza.

Fóssil fica em cartaz de quinta-feira a domingo no Espaço Cênico do Sesc Pompéia, do dia 09 de janeiro a 02 de fevereiro. Os ingressos custam de R$ 15,00 (meia) a R$ 30,00 (inteira), com sessões às 21h30 (quintas a sábados) e às 18h30 (domingos).

Sandra Corveloni, Nelson Baskerville e Natália Gonsales | Foto: Ronaldo Gutierrez