Sandra Pêra | Foto: Samuel Chaves
Sandra Pêra | Foto: Samuel Chaves

Foi no dia 17 de setembro de 1934 que a União Soviética, então independente de blocos econômicos, passou a fazer parte da Sociedade das Nações. No mesmo dia, em 1944, a batalha de Arnhem, na Holanda, marca o último êxito do exército alemão na Segunda Guerra Mundial e em 1944 é aprovada a polaca 4ª Constituição Brasileira.

Mas foi na tarde de uma sexta-feira, 17 de setembro, em 1954 que uma recém-nascida escapou de se chamar Marilda ou Marlene graças a sua irmã mais velha, que insistiu em lhe batizar com o nome de uma de suas bonecas. Foi assim, então que veio Sandra, filha dos atores Manuel Pêra e Dinorah Marzullo e irmã de uma certa Marília Pêra que, enfrentando o destino inevitável de sua família, e enveredou pelo caminho das artes cênicas.

Sandra no colo da irmã, Marília | Foto: Arquivo

“Era impossível que qualquer pessoa nessa família virasse advogado, por exemplo. Impossível!”, se diverte Sandra Pêra, atriz, cantora e diretora que, vinda de uma família basicamente de atores (“Meu pai, minha mãe, minha irmã, minha avó materna, todos eram da área”, conta) até pensou em enveredar pelo caminho da psicologia ou da arqueologia, mas não pôde resistir aos encantos das coxias dos teatros.

“Para uma criança, quando você nasce nesse meio, você passa férias, fim de semana, todos os dias nas coxias, a minha alegria era ir ao teatro”, relembra a atriz em cartaz em São Paulo até o dia 28 de julho no Theatro Net São Paulo, onde recebeu a reportagem do Observatório, no elenco de 70?! Década do Divino Maravilhoso Doc. Musical, espetáculo no qual volta ao repertório e a companhia do grupo que a celebrizou no final da década de 1970, umas tais Frenéticas.

Dhu Moraes, Sandra Pêra e Leiloca Neves | Foto: Divulgação

“Era o dia inteiro no avião, fazendo shows, gravando programas, cantando, era uma rotina muito intensa”, relembra Pêra que, atendendo a um convite do amigo e então cunhado Nelson Motta arregimentou um grupo de amigas para descolar uma grana servindo as mesas da boate que o jornalista e agitador cultural abriria no shopping da Gávea por tempo determinado, antes de precisar desocupar o local para dar lugar ao Teatro dos Quatro, ainda hoje em funcionamento.

“(…) Elas não seriam só garçonetes, no meio da noite subiriam ao palco de surpresa, cantariam três ou quatro músicas e depois voltariam às bandejas. Ficaria muito simpático e original, elas se divertiriam mais e provavelmente melhorariam muito as gorjetas. Escolhemos cinco músicas, de Rita Lee (Dançar para não Dançar), dos Rolling Stones (Let’s Spend the Night Together), de Raul Seixas (Let Me Sing) e dois clássicos da Jovem Guarda (Exército do Surf e O Gênio), e chamei Roberto de Carvalho, o novo pianista, guitarrista e namorado de Rita Lee, para ensaiá-las”, relembra o jornalista em seu livro Noites Tropicais (2000).

As Frenéticas | Foto: Arquivo

O sucesso destas canjas foi aumentando e o grupo deixou de servir mesas para se tornar a atração principal da casa, resultando no sucesso de hits feitos especialmente para elas, como Perigosa (Rita Lee/ Roberto de Carvalho/ Nelson Motta), entre outros. E o resto é História. Mas até chegar ao fenômeno que se tornaria a principal referência da disco music no Brasil, Sandra ainda percorreria um longo caminho, a começar pelas coxias dos teatros de onde via sua irmã, Marilia, compor o elenco de produções como My Fair Lady (protagonizada por Bibi Ferreira) e Como Vencer na Vida sem Fazer Força (1965).

“Ela era quase a única que cantava, e cantava muito bem. Tinha ela, a Bibi Ferreira, a Suely Franco, a Norma Sueli e só. Tinham as outras atrizes que cantavam meio mal, mas era o que tinha”, comenta a atriz que, seguindo os passos da irmã, também enveredou para os musicais. Um deles, ao lado da irmã, foi A Vida Escrachada de Joana Martini e Baby Stompanato em 1970, quando, aos 16 anos, trabalhou escondida do Juizado de Menores, e emendou com a temporada de Pobre Menina Rica, de Vinicius de Moraes e Carlos Lyra, em 1972.

Desde então, deu vida a Aurora Miranda em A Pequena Notável (1972), sob a direção de Maurício Sherman, e compôs o coro de Pippin (1974), musical da Broadway que ganhou destaque no Brasil por contar, pela primeira vez, com um Mestre de Cerimônias interpretado por uma mulher – no caso, Marília.

“Musical era só mais uma coisa, só mais um estilo de teatro, não era o que é hoje. Agora é a grande atração, e é lindo de ver como as pessoas aprenderam a cantar, e cantam muito. Me dá muito prazer de voltar a fazer”, conta a atriz que, a despeito da carreira pregressa, ainda não tinha feito nenhuma grande produção após o fenômeno do gênero que tomou o Brasil no início dos anos 2000.

Sua última incursão pelo gênero foi em O Baile, versão brasileira da peça francesa Le Bal, de 1981, criação do grupo Théâtre du Campagnol sob a direção de Jea-Claude Prenchenat, o co-fundador do Théâtre du Soleil. A obra, que ganhou fama internacional ao ser filmada pelo diretor italiano Ettore Scola, em 1983, chegou ao Brasil em 2008 sob a direção de José Possi Neto, mas não era um musical nos moldes exportados pela Broadway norte americana e pelo West End londrino.

Com exceção de Pippin, Sandra ainda não teve a experiência de compor o elenco de uma superprodução internacional, mas já experimentou diferentes linguagens do gênero, como o Cabaret Melinda, montado com 10 dos 20 atores que compuseram o elenco de O Baile, entre eles Alice Borges, Cláudia Mauro e Édio Nunes. “Era uma bobajada, a gente não ganhava nada, mas amava fazer”, relembra.

Entretanto, a despeito da experiência no gênero, a atriz não vê um motivo para ainda não ter composto o elenco de um grande espetáculo. “Acho que é contingência mesmo, não sei explicar. Nunca aconteceu desse período pra cá de eu ser chamada. A gente vai fazendo um trabalho e outro e o fim nem percebe”, diz.

Entretanto, se os musicais não fazem parte da seara mais frutífera de sua carreira, o teatro chamado “convencional” é uma constante em sua carreira. Tanto que, incansável, não deixa de ler e pesquisar espetáculos onde possa se inserir. Foi nessa busca que encontrou A Porta da Frente, espetáculo de Júlia Spadaccini encenado originalmente em 2013 no Rio de Janeiro e que decidiu bancar como produtora uma encenação paulistana.

O espetáculo, sob a direção de Marcelo Várzea, foi feito sem patrocínio, e angariou boas críticas ao longo do ano de 2018. “Fizemos na cara e na coragem, sem patrocínio, e é muito difícil, porque para divulgar é um inferno e a gente tentou fazer como antigamente, porque se fazia teatro e se vivia da bilheteria, mas hoje já não dá, não se consegue”, contesta a atriz, que viu os pais sustentando a família com as bilheterias que ganhavam fazendo teatro de repertório na companha de Henriete Morineau e Dulcina de Moraes.

“Sou filha e neta de teatro, e todo mundo viveu e sustentou famílias com as bilheterias e com os salários que se ganhava nas companhias, não sei por que isso acabou”, lamenta a atriz que, prestes a completar 65 anos de vida e 50 de carreira se mantém repleta de projetos, entre eles o show Duas Feras Perigosas, idealizado ao lado da amiga Dhu Moraes e eternizado em DVD pela gravadora Biscoito Fino neste ano de 2019.

O espetáculo, uma celebração da amizade da dupla – que começou muito antes do “boom” do grupo As Frenéticas – deve voltar à estrada após o fim da turnê do musical 70?!, e deve dividir espaço também com a realização de um antigo desejo da cantora de fazer um show solo. Mas a realização dos projetos ainda depende de um detalhe prático: “A gente precisa ganhar dinheiro porque vive do trabalho. Eu não vivo de renda, vivo do meu trabalho, então preciso trabalhar! Esse show que eu faço com a Dhu é pra mostrar trabalho, não é uma coisa que renda, embora seja muito prazeroso”.

A atriz também pretende voltar a dividir seu tempo de atriz com o exercício da direção iniciado ao lado da irmã, Marília Pêra, com quem dirigiu espetáculos como o mega sucesso Elas por Ela, que contou com a direção musical de Gonzaguinha, em 1989, e que viajou o Brasil e virou especial da Rede Globo.

Sozinha, assumiu a direção de Acredite, um Espírito Baixou em Mim!, peça de Ronaldo Ciambroni que estreou em1998 em Belo Horizonte  e sege há 21 anos em cartaz com sucesso de público, estrelada por Maurício Canguço e Ilvio Amaral, atores que Pêra conheceu ao longo das gravações da novela Mandacaru, da Rede Manchete.

“Eles me convidaram primeiro para fazer, mas quando li achei a personagem muito novinha e não topei. Então me chamaram para dirigir, e eu só tinha dirigido com a minha irmã, então não quis aceitar, mas eles insistiram tanto que acabe embarcando” relembra a artista que se surpreendeu com o sucesso e a repercussão do espetáculo.

“Tinham filas imensas na porta do teatro no primeiro dia. No segundo também, e no terceiro. E é um sucesso até hoje, 21 anos em cartaz. Fazíamos de segunda a segunda com duas sessões por dia. Um sucesso estrondoso e é uma grande bobagem, uma grande diversão, eu adoro e adoro eles. Às vezes vou assistir e fico louca, brigo com eles, ‘tá muito sujo, cheio de cacos’, mas não tem jeito, e é um sucesso do jeito que é”, se diverte.

Na direção, Sandra ainda assinou espetáculos como o show Baiana da Gema (2004), no qual a cantora Simone interpretava canções inéditas compostas por Ivan Lins, o monólogo  A Verdadeira História de Beatriz Alzira, com Beth Lama que, na peça, interpretava Fama, canção que se tornaria um dos maiores sucessos da trilha sonora da novela Celeridade, de Gilberto Braga.

A atriz também assumiu a direção de Orgulhosa Demais, Frágil Demais (2014), de Fernando Duarte, no qual narrava o fictício encontro entre Marilyn Monroe e Maria Callas no camarim após a estrela do cinema americano interpretar o mítico Happy Birthday para o presidente John F. Kennedy. A peça era estrelada por Rita Elmôr, na pele de Callas, e Samara Felippo, como Monroe.

“Era muito bonitinho, mas quase ninguém viu. Fizemos no Centro Cultural do Correios, no Rio, mas era uma tristeza porque estreamos em janeiro naquele calor de 100 graus e, na semana seguinte a estreia, o ar condicionado do prédio inteiro pifou aí não tinha como fazer, suspendemos a sessão. Aí concertaram, fizemos, mas no dia seguinte quebrou de novo, e foi indo assim até o fim da temporada, uma frustração. Mas as meninas estavam muito bem, e eu tinha o maior orgulho”, relembra.

Show Duas Feras Perigosas no Sesc Pompéia | Foto: Rede Sesc

Sempre em busca de novos projetos, Sandra diz que ainda pretende fazer muitas coisas, mas tem um pé atrás cm o atual momento da cultura no país, embora não se aprofunde no assunto. “Eu acho que qualquer coisa que eu diga já foi dito, é o óbvio. É um momento muito estranho, todo mundo estranho. O mundo, o país, a cabeça das pessoas, tudo muito feio, e é normal que tratem a cultura mal, a tratem como se não tivesse importância”, acredita a atriz que, enquanto busca novos projetos, segue em cartaz com este espetáculo que, garante, a faz muito feliz.

“Qualquer coisa que eu queira fazer já foi feito, mas se tiver alguma coisa que me interesse, eu faço. Gosto muito de cantar, de fazer shows, mas gosto muito de texto. Isso tudo me dá muito prazer. Esse show que eu faço com a Dhu me dá muito prazer e isso que eu estou fazendo aqui, esse musica com todas essas pessoas me dá muito prazer”, garante Sandra Pêra, que arremata: “Quero fazer muito teatro ainda!” Quem viver…