Cenógrafo José de Anchieta
Cenógrafo José de Anchieta (Foto: Lenise Pinheiro)

Diretor, cenógrafo e figurinista que se notabilizou entre as décadas de 1970 e 1980 por entender e ser quem melhor soube traduzir, as experimentações cênicas de diretores como Antunes Filho e Cacá Rosset, José de Anchieta saiu de cena na tarde de quinta-feira (23), aos 71 anos de idade, após passar quatro dias internado por um quadro de complicações no tratamento contra a diabetes. 

O profissional, em plena atividade, deixa três filhos, quatro netos e a esposa, a professora doutora e escritora Chake Ekizian, com quem era casado há 45 anos, além de uma obra em pleno andamento, e uma obra magistral que chegou a entrar em leilão em 2003 após (merecida) exposição, mas se manteve no acervo pessoal do artista.

O INÍCIO 

Pernambucano natural de Caruaru, José de Anchieta chegou a São Paulo no final da década de 1960, quando trabalhou como figurinista de pequenas companhias. Em 1972, iniciou parceria com Antunes Filho, assinando figurino e cenografia no espetáculo Em Família, de Oduvaldo Vianna Filho. A partir daí, a dupla ainda trabalharia junta em encenações como O Estranho Caso de Mr. Morgan (Anthony Shaffer, 1972), Check Up (Paulo Pontes, 1973) e Bodas de Sangue (Federico García Lorca, 1973), encerrando a parceria por divergências artísticas e ensaiando, ao longo dos anos, retomadas que nunca aconteceram. 

Até porque, na década seguinte, Anchieta se tornaria um célebre figurinista e cenógrafo do teatro nacional por conseguir dar vazão e ampliar a linguagem de vanguarda do Teatro do Ornitorrinco, fazendo de Cacá Rosset seu grande parceiro profissional, com quem trabalhou na maioria dos espetáculos do grupo desde o final da década de 1980. 

A CONSAGRAÇÃO 

Ao lado do grupo paulistano, Anchieta idealizou a cenografia e os figurinos para espetáculos como O Doente Imaginário, a clássica comédia de Molière encenada pelo grupo em 1989, que aportou em Nova York e da conta da já famosa história a respeito de Cacá Rosset procurando pelo olho que caiu de seu rosto e voou para a plateia. O efeito pensado por Anchieta lhe rendeu elogios e louros. 

Sua carreira, a época, já contabilizava dois prêmios APCA nas categorias Melhor Figurino e Melhor Cenografia, além de um Kikito de Ouro pela azeitada direção do filme Ponto Final, de 1972. Anchieta, inclusive, criou respeitada carreira no cinema como roteirista e diretor. 

Mas foi em 1995 que o profissional seria realmente consagrado, com a entrega do prêmio de maior importância no mundo para as áreas de figurino e cenografia. Comemorando o conjunto de sua (então já) impressionante obra, o multiartista recebeu o prêmio Grand Prix Triga de Ouro das mãos de Mel Gussow, um dos mais respeitados críticos de teatro do New York Times, em Praga, na República Tcheca. 

ÚLTIMAS PRODUÇÕES 

Com o passar dos anos, Anchieta manteve viva sua parceria com o Ornitorrinco e suas multifacetadas composições. Com o grupo, montou ainda O Avarento (Molière, 1998), O Marido vai a Caça (Georges Feydeau, 2006) e A Megera Domada (William Shakespeare, 2008), além da controvertida Nem Princesas, Nem Escravas (Humberto Robles, 2018), obra miúda escolhida para comemorar os 40 anos de atividade da companhia fundada por Cacá Rosset, com Ângela Dip, Christiane Tricerri e Rachel Ripani no elenco. 

Ao longo dos anos, também construiu outras parcerias significativas, como a que ajudou Alexandre Reinecke, requisitado diretor que aprendeu a moldar o tempo da comédia contemporânea como poucos, a valorizar espetáculos menores ao longo dos anos 2000.

Ao lado de Reinecke, Anchieta imprimiu maior valor artístico a obras irregulares como O Clã das Divorciadas (2010), Uma Mulher do Outro Mundo (2012) e Meu Filho vai Casar (2018). Da parceria da dupla, vale ressaltar a boa montagem de A Besta (2014), de Molière. 

Assinando ainda a cenografia e os figurinos de óperas do quilate de O Barbeiro de Sevilha (2019), que abriu a temporada lírica do Theatro Municipal de São Paulo este ano, Anchieta saiu de cena em plena produção. Seu próximo trabalho seria ao lado da ornitorrinca Christiane Tricerri em Frida Kahlo: Viva la Vida, sobre a vida da pintora mexicana. As pesquisas estavam prontas, mas não houve tempo de finalizar. 

A considerar a magistral contribuição do profissional para o teatro paulistano – brasileiro, por que não? – é de se imaginar que já se faz necessária uma nova exposição com suas obras, que já não deu apenas vazão a criatividade de grandes nomes, mas também ajudou a ressignificar obras que poderiam ter passado incólumes, mas ganharam imensamente com sua visão azeitada acerca da cenografia teatral.